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Repentista da Marreca e Miguezim de Princesa no cordel do Zé Dirceu

25 de fev de 2015


Sou  poeta de XiqueXique
Sou mal-assombro do escuro,
Sebo de bode capado,
Gato gemendo em telhado,
Fogo queimando em monturo,
Adivinho do futuro,
Primo-irmão de Zebedeu
Sou fogo que o Coliseu
Transformou em chama ardente
Sou o alvará recorrente
Que soltou o Zé Dirceu

Sou porta sem fechadura
Sou tamanco, sou buzina
Eu sou a cruz da menina
Milagre da sepultura
Sou queijo com rapadura
Estou dizendo quem sou eu
Sou alguém que faleceu
Bangelo mostrando um dente
Eu sou o alvará recorrente
Que soltou  o Zé Dirceu.

Sou  titela de galinha
Misturado com  cuscuz
Valei-me Santo Jesus
Que essa vontade eu já tinha
Uma lata de sardinha
Lá em casa tu comeu
E quer saber quem sou eu
Eu sou quase um resistente
Eu sou o alvará recorrente
Que soltou o Zé Dirceu

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O indiscreto charme da burguesia tupiniquim

24 de fev de 2015


 
 
No Brasil ainda perduram em segmentos da população, aquelas pessoas que não ajudam em casa ou em lugar nenhum. Tem gente que não sabe nem mesmo colocar e tirar uma mesa ou arrumar a própria cama.  

Atiram suas coisas pela casa, no chão, em qualquer lugar, e as deixa lá, pelo caminho. Não estão nem aí. Eles foram  criados irresponsáveis e inconsequentes. É o tipo de cara que pede um copo d’água deitado no sofá. E não faz nenhuma questão de mudar. 

São especialistas em não fazer, em fazer de conta, em empurrar com a barriga, em se fazer de morto. Sabem que alguém fará por eles. Então se desenvolveram em preguiçosos. Folgados. Que se escoram nos outros, não reconhecem obrigações e que adoram levar vantagem. Esse é o seu esporte predileto – transformar quem o cerca em seus otários particulares.

O tempo deles vale mais que o das demais pessoas. É a mãe que fura a fila de carros no colégio dos filhos. É a moça que estaciona em vaga para deficientes ou para idosos. É o casal que atrasa uma hora num jantar marcado com os amigos. A lei e as regras só valem para os outros. Não aceitam restrições. Para eles, só privilégios e prerrogativas. Um direito divino – porque eles são melhores que todos os outros. São  adeptos do vale tudo social, do cada um por si e do seja o que deus quiser. Eles só tem olhos para o próprio umbigo e os únicos interesses válidos são os seus.

Arvoram-se parâmetros de tudo. Quanto mais alguém for diferente deles, mais errado esse alguém estará. Eles tem preconceito contra pretos, pardos, pobres, nordestinos, baixos, gordos, gente do interior, gente que mora longe e até com gente que escreve neste blog.

São sexistas para caramba. Mesma lógica: quem não é da sua tribo, do seu quintal, é torto. E às vezes até quem é da tribo entra na moenda dos seus pré-julgamentos e das sua maledicências. 

Os perfeitos idiotas de classe média brasileiros vão para Orlando sempre que podem. Seus templos, seus centros de peregrinação, são os outlets na Flórida. Acham a Europa chata. E a Ásia, um planeta esquisito com gente estranha e amarela que não lhe interessa. Há um tempo,  descobriram Nova York – para onde vão exclusivamente para comprar. Ficaram meia hora dentro do Metropolitan, uma vez, mas acharam aquilo aborrecido demais. Comem pizza no Sbarro. Jogam lixo no chão. Só anda de táxi – metrô, com a galera, nem em Manhattan. 

Nos anos 90, compravam camiseta no Hard Rock Cafe. Hoje viraram sacoleiros em lojas com Abercrombie & Fitch e Tommy Hillfiger. Depois de toda a farra, ainda trocam cotoveladas no free shop para comprar uísque, perfume, chocolate e maquiagem.

Adoram pagar caro. Fazem questão. Não apenas porque, para eles, caro é sinônimo de bom. Mas, principalmente, porque caro é sinônimo de “cheguei lá” e “eu posso” e “veja o quanto eu paguei nesse relógio ou nessa calça da Diesel”. Eles exibem marcas como penduricalhos numa árvore de natal. É assim que se mostram para os outros. Se pudessem, deixariam as etiquetas presas aos itens do vestuário e aos acessórios que carregam. São bregas. Compram para se afirmar, para se expressar de algum modo.Não se sentem idiotas pagando 4 000 reais por um console de vídeo game que custa 400 dólares lá fora. 

Nem acham um acinte pagar 150 000 reais por um carro que vale 25000 dólares. Essa é a sua religião. Eles não se importam de ficar no vermelho – a preocupação com ter as contas em dias é para os fracos. Ele é o protótipo do novo rico burro. Do sujeito que acha que o bolso cheio pode compensar uma cabeça vazia.
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A fabulosa fábula do ratinho comunista

21 de fev de 2015


 
 
 
Ratolândia era um lugar  onde todos os ratinhos viviam, brincavam e morriam. Eles viviam e morriam da mesma maneira que todos nós deste sertão são-franciscano.

Também tinham Câmara,  Parlamento,  Assembleia Legislativa... 
A cada quatro anos havia eleições. Eles sempre caminhavam rumo às urnas e votavam. Alguns iam de ônibus, vans e  paus-de-arara para votar, transportes cedidos por alguns candidatos que não estavam nem aí para a lei eleitoral vigente em Ratolândia. 

A cada dia de eleições, todos os ratinhos se habituaram a ir às urnas e elegiam um governo. Um governo formado por enormes e gordos gatos.

Os gatos  conduziam o governo com dignidade, aprovavam boas leis, leis que eram boas para os gatos. Mas estas leis que eram boas para os gatos não eram muito boas para os ratos.

Uma das leis dizia que a porta da casa dos ratos tinha que ter um tamanho suficiente, para que lá coubesse a pata de um gato.

Outra lei dizia que os ratos só podiam andar a uma certa velocidade, para que um gato conseguisse o seu almoço, sem muito esforço físico.
Todas essas leis eram muito boas para gatos, porém muito duras para os ratinhos.

E a vida dos ratos se tornava cada vez mais e mais difícil.

Um belíssimo dia, quando os ratos já não suportavam mais, decidiram que alguma coisa tinha que ser feita, e foram em massa às urnas. Votaram contra os gatos negros e elegeram gatos brancos!

Os gatos brancos tinham feito uma campanha genial e  eles sempre diziam no horário eleitoral:
- O que a Ratolândia precisa é de mais visão. O problema da Ratolândia são as pequenas entradas redondas das casas dos ratos. Se vocês nos elegerem, faremos entradas quadradas.

E assim fizeram. Mas as entradas quadradas ficaram com o dobro do tamanho das redondas – agora os gatos podiam colocar lá as duas patas e a vida do ratos ficou ainda mais dura.

E quando não podiam suportar mais, votaram contra os gatos brancos, e puseram lá de novo os gatos negros, para quase imediatamente, a seguir, regressarem aos gatos brancos e depois novamente aos gatos negros, ficaram assim revezando de candidato.

Até tentaram com um gato metade negro e metade branco e chamaram a isso – “Coligação.”
Tentaram também um governo com gatos malhados, que eram gatos que tentavam falar como ratos mas que comiam como gatos.

Como vocês estão vendo, o problema não estava na cor dos gatos, o problema estava no fato de serem gatos! E porque eram gatos, eles naturalmente defendiam os interesses dos gatos e não dos ratos.

Finalmente, chegou de longe um pequeno ratinho, muito inteligente, que tinha uma ideia para solucionar todo aquele problema.
- Meus amigos -disseram os ratos- estejam atentos ao companheiro que possui uma ideia.
E ele, o ratinho intelectual, disse à multidão de ratinhos:

- Vejam, amigos, companheiros, camaradas! Por que continuamos a eleger um governo majoritário de gatos? Por que não elegemos um governo com maioria de ratos?

- Ohh! -disseram os ratos eleitores- és um comunista! chamemos, pois,  os gatos!!!
E assim, por ser o ratinho comunista muito inteligente e capaz, colocaram-no na prisão.

Mas o ratinho comunista que foi preso era também filósofo e, nesta condição, sabia se manifestar como filósofo e bradava, filosoficamente, para os seus algozes: “Vocês podem encarcerar um rato, mas não podem encarcerar uma ideia”.
Os algozes, então, torturaram e  mataram o ratinho comunista. 
 
Não há, portanto,  moral nessa  história.

Fonte: Fábulas de La Fontaine

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No caminho dos penitentes da beira do rio

20 de fev de 2015


Fim de carnaval. Quarta-Feira de Cinzas. Em pouco tempo  a matraca, na última semana da quaresma, soará demoradamente num acorde exasperado de estalidos secos e a lamentação das almas seguirá a passos lentos pelas sete estações da Via Sacra  barranqueira,  a entoar benditos e padre-nossos.

Os penitentes flagelam-se com as lâminas afiadas da “disciplina”, num suplício multifacetado de arrependimentos e de  excessos dogmáticos de religiosidade popular,  buscando redimir os  próprios pecados e os alheios.

As almas santas, estagiárias, que estão a levitar no limbo do purgatório, acompanham os fiéis penitentes durante a lamentação quando se alimentam das suas  rezas, em forma de benditos, nutrindo a  esperança de que sejam atenuados ou eximidos os seus sofrimentos, numa espécie de remissão a purgar todas as faltas e transgressões cometidas em vida. .

Os devotos serão, portanto, amparados e providos  por essas santas almas benditas,  efêmeros habitantes do purgatório que é  lugar de penumbra, onde as penas são flexíveis e temporárias, jamais perpétuas, por força de orações das alimentadeiras.

Os rituais da lamentação praticados pelos penitentes de XiqueXique  revestem-se  de  dogmas que não podem ser  olvidados. A liturgia penitencial há de ser celebrada, cumprida e executada por  sete anos ininterruptos quando, nesse intervalo de tempo,  na Semana Santa, as almas do purgatório suplicam pelos benditos e padre-nossos  dos que ainda estão  vivos.

Se um penitente desistir da autoflagelação dos sete anos seguidos, acredita-se que as almas santas benditas deixarão de conceder-lhe a indulgência plenária, pois o cumprimento do voto penitencial é compulsório a partir da quarta-feira até a sexta-feira no final da quaresma.

Nas imediações da Capela de São Pedro, no bairro dos Paramelos, onde residi por algum tempo, em XiqueXique, existia uma estação da Via Sagrada de peregrinação dos penitentes.  Ali  ouvi e aprendi a  cantar esse bendito de polifonia a três, quatro e cinco vozes:

Na quarta-feira Jesus com seus discípulos
Foi a Oliveira, foi a Jerusalém
Foi a Páscoa, meu Jesus com seus discípulos
Que padeceu a favor de nosso bem

Na quinta-feira Jesus banhou os pés
Com grande gosto, prazer e contentamento
Depois da ceia, meu Jesus restitui-se
Com grande gosto meu Santíssimo Sacramento

Na sexta-feira Jesus subiu ao horto
Foi rezar três horas de oração
Encontrou Judas na frente de uma tropa
Já vinha ele de alferes capitão.

Na última estação, já no cemitério, vozes roucas se juntam, contritas,  desfazendo os murmúrios dos curiosos, avisando  num toque derradeiro:

“Alerta, alerta, pecador
Pecador que não se lembra do pecado
Hoje é vivo, amanhã é morto
Na escada da sentença
Purgatório é penitência
Eu vos peço, meu Senhor
Eu vos peço: Misericórdia!”

Após as trevas da madrugada de Sexta-feira da Paixão, resplandece o Sábado e rompe-se a Aleluia com  o enforcamento dos Judas Corruptores que ainda  persistem  em transitar entre os cristãos beiradeiros a  oferecer-lhes  mais do que  trinta dinheiros.

Apraz-me dizer, no entanto,  que esses Iscariotes personificados serão malhados e escorraçados, sem  compaixão,  pelo povo penitente da beira do rio.

Autor: Nilson Machado de Azevedo
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A violenta segregação social no carnaval de Salvador

18 de fev de 2015



Para começo de conversa, o carnaval de Salvador já não é de Salvador. De acordo com as estatísticas, apenas 22% dos soteropolitanos participam dele. Mas de modo desigual, é preciso que se diga. Pois muitos participam da grande festa sem festejar, ou seja, trabalhando em condições mais que precárias: uns, na condição servil de “cordeiros”; outros a espremerem-se pelas ruas, vendendo cerveja e petiscos miúdos, enfeites etc; ou ainda catando latas dia e noite. 


Em Salvador você tem duas opções para brincar o Carnaval: ou se gasta uma fortuna para bancar a privatização da folia ou se vive uma popcorn experience sendo esmagado do lado de fora da avenida, onde a sensação é a mesma de se sentir um dejeto humano, apanhando da polícia e dos seguranças do cordão de isolamento.

A miséria dos “cordeiros” é explorada de forma obscena e a triste instituição do bloco de cordas se mantém ano após ano com o beneplácito das nossas autoridades, decerto empenhadas em honrar as tradições escravistas da Bahia. Os amos do bloco até alegam que com isso oferecem uma oportunidade de ganho a pessoas necessitadas.
A espantosa pobreza de Salvador, fruto de desgoverno e insensibilidade social, recruta facilmente homens e mulheres para esse tipo de trabalho. 




É ela também que leva famílias inteiras a dormir na rua durante a bela festa, sacrificando-se para obter um pequeno aumento de suas rendas com um inseguro comércio. Para isto fazem vigília no tumulto carnavalesco; dormem pelas manhãs na promiscuidade e na sujeira, nas calçadas ou nos escassos gramados, entre bêbados e lixo. Ou em barraquinhas improvisadas que tomam calçadas e bloqueiam a entrada de inúmeros prédios na Barra e Ondina, por exemplo.

Há o turismo que enche os hotéis; há os promoters, donos de blocos e de camarotes, as cervejarias e seus propagandistas. Os trabalhadores qualificados do carnaval têm seu ganho muito suado… quando não levam calote, como acontece frequentemente com músicos contratados pelo município, cujas queixas ecoam por meses na imprensa. Também os “cordeiros” são com frequência caloteados.

No carnaval de Salvador já se cometeu todo tipo de asneiras, inclusive já aconteceu   uma declaração da cantora Cláudia Leite que caracterizou os dois principais circuitos da folia soteropolitana, a partir dos respectivos públicos: segundo ela, na Avenida Sete – Campo Grande predomina o povo, já no circuito Barra – Ondina predomina a "gente bonita". 

Sórdido racismo e grosseiro preconceito classista transparecem na declaração, fruto da involuntária e irrefletida sinceridade da “estrela”, equiparável à inconsciente (e momentânea) franqueza do prefeito. Mas o que a cantora boquirrota verbalizou está bem arraigado no modo de pensar da minoria hoje hegemônica no carnaval da Boa Terra. A “gente bonita” é a que veste os disputados abadás, protege-se com as cordas e dos corpos de pessoas carentes do povo e se diverte seguindo seus enormes trios nos blocos privilegiados. 

A propósito, recorde-se o que dizem os felizes mercadores do carnaval baiano: 80% desses abadás são vendidos para turistas, para gente de fora.Mais uma evidência de que o famoso carnaval de Salvador já não é de Salvador.

Tampouco se pode dizer que esta é  uma festa popular. Basicamente é uma festa de gente rica que tolera marginalmente uma fatia do povão. Fotos eloquentes mostram a distribuição desigual da folia soteropolitana: em camadas espremidas nas margens, gente negra ladeia o grande rio branco de foliões privilegiados. O nosso vergonhoso apartheid se faz transparente nessas cruas imagens.

É a maior e mais descarada das mentiras dizer, portanto, que o carnaval de Salvador é uma festa popular que  é festa do povo para o povo. É coisa nenhuma! Carnaval virou festa para meia dúzia de gatos pingados e cheios da grana que se esgueiram nos camarotes com suas expressões de nojo quando voltam o olhar para a ralé presa ao chão. Chegaram ao vexatório ponto de transformar uma festa genuína, essencialmente cultural num coral de vozes estrangeiras que mal sabem cantar, mas que lotam as suítes dos grandes hotéis da orla.

Pelo mesmo prisma, os direitos básicos de quem mora na área carnavalizada são eclipsados, suspensos, suprimidos, apagados ou violentamente restringidos por longo período, como se isso tivesse alguma base ética ou jurídica; como se fosse compatível com a democracia, a liberdade, a decência; como se  fosse coisa normal.  Numa cidade em que a mobilidade urbana  é crítica, o direito de ir e vir dos moradores dessa parte da orla e de outros trechos da urbe se vê severamente limitado por longo tempo. O sono é proscrito para muitos; o sossego fica proibido. 

Quem não quer ensurdecer que se mude. E se quer paz, dane-se. É carnaval! Quem não deseja ver danificada sua casa, seu edifício ou seu estabelecimento de comércio, providencie tapumes e arque com os gastos, pois o poder público não tem nada com isso. Mas prepare-se direito, pois a coisa piora dia a dia: daqui a pouco será necessário blindar as janelas, porquanto os tiroteios entraram em moda nas festas do circuito Barra-Ondina.

Os donos da folia caracterizam sua promoção como cultural, reclamam verbas públicas destinadas à área da cultura. Mas é difícil encontrar qualquer coisa de criativo e interessante no circuito da gente bonita. A criatividade e a beleza, o humor, a crítica, a inteligência, são ainda encontráveis (cada vez menos) no carnaval de Salvador, mas não no espaço que se considera o mais privilegiado dessa folia. Os blocos afros continuam belos, o Filhos de Ghandi ainda encanta, há graça nas Muquiranas e no "ideológico" Mudança do Garcia.

Muitos foliões passam longas horas a caminhar de um lado para o outro, à espera de que surja a estrela e dê seu show, fazendo-os agitar-se quase mecanicamente. Seja como for, os donos da folia insistem em que o carnaval é o supra-sumo da cultura soteropolitana. Também há quem afirme que a sujeira e o barulho “fazem parte” da cultura soteropolitana. Mas o povo de Salvador com certeza não merece o insulto.

Quem está longe desta festa que exclui, marginaliza e deplora o mais humilde não se sinta triste. E quem está prestes a viajar para Salvador pensando em acompanhar uma festa popular, se prepare para assistir a um apartheid sem precedentes na cultura brasileira. Um bloco de pessoas brancas que atravessa um corredor de negros. Está ali a força de um estigma social: os que podem pagar o carnaval e aqueles que o criaram e não tem acesso.



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Mudou o carnaval ou mudou XiqueXique?

16 de fev de 2015


Reprisa na minha memória um carnaval de apenas três dias quando ao  ostentar pela Avenida J.J. Seabra, usei uma fantasia confeccionada pelo exclusivo e  inimitável alfaiate João Pacheco. A fantasia simbolizava um gavião de terno e gravata que pulava na folia à caça de andorinhas, odaliscas e colombinas.

O Abre Alas, com percussão de triunfante cadência, tinha no seu comando a batucada regida por Silvio Bandeira e o  "Balancei a roseira/ a rosa caiu/ rosa tem espinhos/ rosa me traiu" ... representava um  samba muito em voga, incluído no repertório da batucada de Silvio.

Os clubes sociais Sete de Setembro e Operária, concorrentes, esmeravam-se na decoração momesca, disputando a participação do inesquecível maestro e saxofonista Mário Rapadura, bem assim, do inconfundível Hermes que fazia do seu trombone o instrumento das marchinhas idílicas com inigualável competência, além de Pedro Cachaça, exímio baterista e o discreto Manoel Guerreiro, tocador de banjo.

O tríduo momesco  espalhava-se pela cidade até a dispersão no periférico cabaré de Lourenço, ao tempo em que as graciosas cabrochas da rua do Perau desfilavam com seu estandarte de coloridas lantejoulas e paetês, recebendo merecidos aplausos  do cordão dos marmanjos e dos velhos assanhados que caiam no ráli-gáli, sassaricando na esquina da rua Monsenhor Costa com a praça Dom Máximo.

O aguadeiro Bonitinho não precisava nem usar "máscara de careta", Galo Cego, vigia do hospital, Queném, Eremita, Marciano, Dionísia e outros vultos populares das ruas, também se esbaldavam no carnaval com as suas fantasias naturais do dia-a-dia,  sempre alvos de brincadeiras da indiscreta rapaziada do Momo.

Os entrudos, já em plena decadência, consistiam em jogar foliões na Ipueira, da rampa da praça Getúlio Vargas, permitido pelo  rio cheio no mês de fevereiro, havendo riscos de afogamentos, alguns etílicos, embora sem registros fatais, porquanto todos sabiam nadar e comer água indiscriminadamente.

Pelo sim pelo não, mudou o carnaval, mudou Xiquexique, mas não mudei eu, continuo na mesma festa agora saindo no bloco dos Incutidos. 


Nilson Machado de Azevedo




                               
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O argumento da palmatória (republicação)

8 de fev de 2015

 
Mesmo tendo muita curiosidade pelas ciências exatas, percorro a área de ciências humanas. È nesta mixagem de letras e números que já tive até um livro de cabeceira: “O homem que calculava” de Malba Tahan, o que me fez lembrar que em Xiquexique tínhamos a sabatina ou “argumento” nas aulas de aritmética (também existia em outras matérias escolares) que consistia em colocar os alunos em círculo para serem bombardeados com questionamentos sobre multiplicação, divisão e soma.
 
As respostas haveriam de ser rapidíssimas e se o aluno da vez, não dispusesse de língua afiada ou não respondesse com exatidão e na velocidade da luz as torturantes perguntas, estas iam sendo repassadas para o próximo da fila circular, até que um pestinha acertava a pergunta “argumentada” para ser contemplado na premiação de usar a régua ou a palmatória, distribuindo os temidos “bolos” nas trêmulas mãos dos seus parvos coleguinhas, cuja dose variava de meia dúzia até algumas dúzias, proporcionais à falta cometida e a depender do momento da sua incidência.
 
Eram considerados os ases da aritmética os bons alunos do lendário Mestre Chico, dono de uma escola particular, que ganhou notoriedade em Xiquexique devido ao seu método de ensino que, segundo os pais dos seus alunos, era “o caminho mais curto para o saber” e muitos dos que foram alunos do célebre mestre, até hoje dizem: “Ele sim, que era bom, ele batia bastante e a gente tinha que estudar e aprender. Quem não estudava caia logo fora. Não agüentava. Ele batia e puxava pela gente. A gente aprendia”.
 
Mestre Chico utilizava uma bolinha de cera, presa a uma corda, com a qual ele descarregava golpes na cabeça dos alunos desatenciosos; sistema punitivo muito receptivo e aplaudido, à época, em Xiquexique, afora a bárbara punição de ficar ajoelhado sobre grãos de milho durante determinado tempo, no tempo que as instalações de muitas escolas supletivas eram acanhadas e deficientes, necessitando, em algumas, que os alunos levassem as suas próprias cadeiras ou bancos, porque a instituição não dispunha de mobiliário. Era nessas condições que os pais desses alunos esforçavam-se para que os seus rebentos adquirissem, pelo menos, conhecimentos elementares sobre leitura, escrita, numeração, noções de história, geografia e ciências.
 
Embora merecesse, devido as minhas traquinagens e desídias escolares, não fui aluno de Mestre Chico, mas, mesmo assim, levei e dei muito bolo de palmatória durante as sabatinas. O advogado Marivaldo Figueiredo está bem vivo aqui em Xiquexique para não me deixar mentir.
 
NILSON MACHADO DE AZEVEDO
 
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Um dia de feira na beira do rio

5 de fev de 2015


 
Nos dias de feira livre participei, algumas vezes, das rodas em torno dos propagandistas do óleo de peixe elétrico, do homem da "mala da cobra", dos cegos violeiros, dos repentistas de literatura de cordel, exímios comunicadores do sertão.

Na feira semanal surgia o palco no chão de terra batida ao redor do Mercado Municipal,  a improvisada ribalta iluminada pelos raios do sol da beira do rio, quando as atenções se voltavam para os artistas populares,  os mascates graduados na filosofia e marketing de pílulas milagrosas para curar mau-olhado, espinhela caída, ressaca, quebranto e dor de corno, bem assim de  mezinhas compostas do princípio ativo da catuaba para curar fastio sexual e seus colaterais efeitos, objeto de galhofas, piadas e dichotes, além dos delatores, dedos-duros,   dos potenciais pacientes consumidores vorazes das pílulas divulgadas pelos mascates, propagandistas e marreteiros.

No dia de feira disputava-se, como até hoje se disputa,  nos botecos e nas precárias barracas  erguidas desordenadamente nas  imediações do porto de Xiquexique, as cachaças catuzeira,  pitú e 51, raiz  de quebra-facão em infusão na cachaça,  vinho de jurubeba, tudo isso com a possibilidade do acompanhamento de  tira gosto de mandi, caboge,  curimatá, frito de  carne de bode, bolo brevidade  e pêta.

Na feira, conheci repentistas e divulgadores de folhetos de cordel, dos quais recolhi esses versos em obra de oito pés:

Gancho de pau é forquilha,
Catombo de pau é nó,
A franga pôs – é galinha,
O fumo ralado é pó,
Peitica cantou é chuva!
Pé de boi é mocotó,
Sumo de cana é cachaça,
Pé de goela é gogó.

De um poeta popular, natural de Remanso, pitoresca cidade  às margens do lago de Sobradinho, decorei esses versos por ele recitados, a demonstrar a sua inteligência e espirituosidade,
quando todos nós aguardávamos esperançosos o período das chuvas no sertão, época em que  a terra ardente entra no cio querendo ser fecundada:

O rio se excita e transborda
Com a bonança das chuvas
Seguindo e fazendo curvas
Num trovejar que o acorda
E um sertanejo recorda
Das agruras do passado
Já sente o solo molhado
Ver o vergel no baixio
O sertão está no cio
Querendo ser fecundado.

Mas se existe essa espontaneidade dos repentistas,
 a poesia de cordel tem sido usada nas propagandas ou reclames, como se  pode observar na sextilha abaixo, onde se fez, por encomenda, propaganda da Mercearia do Povo, estabelecimento comercial localizado  no bairro do Alto Cheiroso, em Juazeiro da Bahia:

Aqui nós temos de tudo
Feijão, farinha e cachaça
Tudo que você precisa
Tá no Mercado da praça
Mercearia do Povo
O nosso preço é de graça.

Observem, ainda,  os  versos, de autoria do poeta Bastos Tigre,  enquadrados  no estilo cordel, criados para  propaganda de “remédio”  que se tornaram famosos, especialmente por ter sido divulgados  nos populares bondes,  transporte coletivo  comum  nas grandes cidades brasileiras em meados do Século XX:

Veja ilustre passageiro
o belo tipo faceiro que
o senhor tem a seu lado.
E, no entanto, acredite,
Quase morreu de bronquite
Salvou-o Rhum Creosotado!

 
Nilson Machado de Azevedo
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Convite para Ariano Suassuna (republicação)

31 de jan de 2015



Esse cabra fi-da-mulesta
Não é um galego ariano
Nasceu em João Pessoa
No litoral paraibano
Ele é bom no repente
Mas vai perder no oxente
Pra mim que sou baiano!

Convido mestre Suassuna
Ele agora me explique
Se quer fazer cantoria
Na feira de Xiquexique...
Aceitando meu desafio
Com Elba Ramalho num trio
Vamos cantar um repente.

Ariano, traga João Grilo
Aquele cabra da peste
E fi-duma-égua do Chicó
Contando ninguém esquece
Do cangaceiro Severino
De valente virou mofino
E a gente se compadece.

Xiquexique está esperando
Vai ter ensopado de Jacu
Lá no meio da Jota Avenida
Com farinha, tomate e umbu
Sem engasgar com  a jacusada
Vai ser uma farra danada
Com tira gosto de sobrecu...
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E-mail para o poeta-cordelista Abraão Batista

28 de jan de 2015



Ao poeta-cordelista Abraão Batista de Juazeiro do Padim Ciço

Meu Mestre Abraão Batista:

Por é-mêio seguem os retratos
que tiramos em Salvador
num domingo de bienal
vinte contos você cobrou
pelos livros de cordel
que pra mim autografou.

Os cordéis como lhe disse
naquela hora de deleite
vou oferecer de presente
com laços de fita de enfeite
para agradar uma menina
que mora lá nos Estêites.

Aqueles vinte contos
valem muito mais, Abraão
dê a metade pra seu Lunga
ou ao embaixador do Japão
mas os dez da outra metade
dê ao  padim Cíço  Romão.

   Mando-lhe um forte abraço
   sou seu admirador primeiro
   os seus versos de cordel
   dá mais fama ao Juazeiro
   que é terra de caba macho
   e de um  poeta  altaneiro.

   Se você não sabe meu nome,
   não estou pedindo emprego
   pois recebo o bolsa família
   do governo brasileiro...
   a graça deste  seu criado
   é  Nilson Machado Azevedo
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O último xiquexiquense em Paris


Paris tem glamour, também tem  mendigos, ladrões e preços altíssimos. No metrô, a situação é vergonhosa. As pessoas pulam as  catracas para viajar de graça. Até senhoras idosas tentam embarcar  no metropolitain de graça. Há batedores de carteira, há os ridículos ladrões do manjadíssimo golpe do anel e o que é pior: nos horários de pico, os ladrões mirins  avançam nas pessoas para roubarem bolsas, mochilas e o que encontrar mais facilmente nos turistas que dão “bobeira”, inclusive turistas cariocas. Isso mesmo. Cariocas. Só não vi, ainda, um xiquexiquense. Mas vejo, ali no marché aux puces, um casal cearense.

Há sempre uma confusão no metrô ou no trem. Algo patético e inacreditável pela cena indigna e risível. Hoje mesmo presenciei um roubo e um enorme tumulto.

Um policial apareceu e saiu correndo pra prender o ladrão, mas ele escapou. O sujeitinho com ares de "boneca"  fugiu gritando em francês, “Je ne suis pas pickpocket” (Eu não sou batedor de carteira). Alguns parisienses afirmam, preconceituosamente,  que os ladrões “são gente originária do Leste Europeu”.
O  certo é que os ladrões e as ladras de Paris, a maioria adolescente, se espalham correndo para todo lado, ninguém sabe quem foi o ladrão ou se falta interesse da polícia parisiense em prendê-los.

A tática é sempre a mesma dentro do metrô ou nos trens que partem do Aeroporto Charles De Gaulle, quando o turista dá vacilo ao entrar no vagão do trem com destino ao centro ou ao bairro de Saint Germain des Près, o Quartier Latin, aonde fica a Universidade de  Sorbonne. 

Tanto faz  no final da escada rolante, como  na rua ,  nos pontos  turísticos, nas varandas dos cafés e restaurantes, jovens, algumas grávidas ou crianças ainda, rodeiam o turista e criam uma situação confusa, pedem assinaturas ou pisam nos pés da vítima. A pessoa se distrai, tenta entender o que está acontecendo e quando consegue se afastar já foi roubada há muito tempo. Muitos não percebem o ato e nenhum francês intervém.

Já com relação aos preços, uma simples mochila que no Brasil custa 100 Reais, em Paris custa 400. Parece que os franceses estão desesperados por dinheiro. Coisa que não vi na Inglaterra e na Alemanha onde preços mais justos são praticados. E quanta tristeza sentir que a   "Cidade Luz", uma das maravilhas do mundo ocidental, que por sorte não foi destruída pelos nazistas de  Hitler, no final da Segunda Guerra Mundial, esteja em crise , sem fôlego para reagir contra a decadência de costumes, enquanto um conhecidíssimo político brasileiro, de ultradireita,  desfila pela Avenida Champs-Elysèes, dirigindo uma Ferrari amarela.

 Em Paris, repito, o glamour em decadência convive, lado a lado, com ladrões, mendigos e medo.

É por essas e outras experiências que angariei na França, e após três meses  de Sorbonne, concluo que não ficarei mais aqui. Somente retorno  para turismo coletivo acompanhado de brasileiros progressistas e  de curiosidade crítica.
Voltarei, enfim, para  a Bahia, mesmo que o meu retorno não tenha nenhuma semelhança com o protesto musicado em versos pungentes do compositor Paulo Diniz: “I don't want to stay here I wanna to go back to Bahia".
Está, portanto, decidido e sacramentado: Amanhã mesmo eu volto para a Bahia e, quem sabe,  estarei  anônimo em XiqueXique, como já estive este ano, quando  num barco a motor, fretado em Euros, fotografei as dunas do Icatu para uma revista francesa.. 

Nilson Machado de Azevedo

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DISCUTI COM UM JACU



Discuti com um jacu
Que tinha a venta suada
Ele só tinha zuada
E como era linguarudo!
Apesar de ser parrudo,
Não corri da discussão
Aguentei bem a pressão
Comecei a balear
Fiz o bicho se enfezar
Pra minha satisfação.

Esse filho de uma quenga
Eu fui matando na unha
Foi mais fácil que eu supunha
E nem precisei de faca
Eu estava com a macaca
Confesso de sangue quente
Vendo o jacu impaciente
Fiz da língua meu chicote
Fiz o bruto dar pinote
Até me olhar diferente.

Os jacus de  Xiquexique
Seguirão o mesmo destino
Mulher, homem e menino
Vão deixar de comer angú
Baleando  muito  jacu
Toda essa  plebe ignara
Na cachaça enche a cara
Vindo comentar neste blog 
E chegando aqui de porre
Os Jacus vão levar vara
 

 
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Mocambo dos Ventos


Tua terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá

Na minha, mandacaru
umbuzeiro e pé de juá.


Manhã de sexta-feira. Mestre Chiquinho, numa só manobra, encostou a barca "Sereia da Ipueira" no barranco do porto do Mocambo dos Ventos. Havíamos deixado, antes do nascer do sol, a Ilha do Miradouro e o estreito do canal do Guaxinim. Já estávamos distantes do porto da Ponta das Pedras, em Xiquexique, ponto de partida e de recolhimento da âncora da nossa embarcação.

Ali no alto do barranco, debaixo de uma mangueira que resistia, inexplicavelmente, à força dos ventos e da areia que formavam as dunas, iniciávamos o ritual de pescadores, o ensaio do preparo da sapeca de peixe, ao acender o fogo  para formar a brasa  sob uma improvisada forquilha para assar os mandins, curimatás, pirás e piranhas bebas, pescados com rede de  tarrafa.

Acercaram-nos alguns nativos, moradores do Mocambo. Traziam um garrafão de aguardente, uma manta de carne de bode salgada e farinha de mandioca preparados ali mesmo ao sabor e ao sopro dos ventos.

Mestre Chiquinho não recusou  a aguardente brejeira. De minha vez,  para não fazer desfeita ao  povo do Mocambo, aceitei, também,  de bom grado, uma talagada da catuzeira,  relíquia artesanal que ainda cheirava à cana caiana dos brejos do Icatu.

Os nossos simpáticos anfitriões, orgulhavam-se em relembrar  que a localidade do Mocambo dos Ventos era de origem quilombola e  hoje habitada pelos descendentes dos escravos .

Apesar dos meus esforços em demonstrar naturalidade nativa, confundiram-me com um  turista, pois a máquina fotográfica, a bermuda estampada, o boné e os óculos escuros denunciaram-me escancaradamente. Logo eu que tenho fama, sem proveito,  de ser marxista, desde  que Marx dizia ser  Marx apesar de pintado  em cor verde-amarelo.

Nos intervalos de cada prosa, debaixo de frondosa mangueira, de cada dose de aguardente e dos sucessivos mergulhos no rio que marulhava ali em frente, contavam-me causos fantásticos envolvendo pescarias, assombrações, mistérios, lutas, mitos e lendas do Velho Chico, representando  uma identidade particular, única, dos heroicos descendentes de antigos escravos  

Um dos causos a mim narrados pelos mucambenses dizia respeito á lenda de Romãozinho.
Reproduzo, resumidamente:

Romãozinho era um menino endiabrado, filho de um casal de lavradores. O pai trabalhava de sol-a-sol na roça e romãozinho era encarregado de levar-lhe diariamente a refeição. A mãe sofria muito com as traquinagens do filho e a brutalidade do marido que a espancava por qualquer "dá cá aquela palha". Romãozinho gostava de ver sua mãe apanhar e, por isso, provocava brigas entre os seus pais.

Todos os dias que ia levar a comida para seu pai na roça, o capeta do menino comia a metade pelo caminho, razão pela qual o pai tinha sempre um motivo para espancar a mulher quando chegava em casa á noite, alegando que ela era uma pessoa mesquinha e que queria matá-lo de fome. A mulher retrucava que mandava comida suficiente e isso aumentava a raiva do marido.

Certo dia, a pobre mãe matou uma galinha e preparou a capricho, mandando-a inteirinha para o marido. Romãozinho comeu tudo no caminho e chegando ao local do trabalho, onde o pai, faminto, o esperava, apresentou-lhe apenas os ossos da galinha, disse: ela manda dizer que se contente com os ossos, pois a carne guardou para o vigário.

Mal acabou de ouvir o que o filho lhe dizia, o homem saiu como louco e, chegando em casa, matou a mulher. No momento exato em que o marido matava a esposa, o mau filho estourou, deixando atrás de si um horrível cheiro de enxofre.

Desse dia em diante Romãozinho começou a aparecer às pessoas, fazendo boiadas arrebentarem os currais, virando panelas no fogo, furando vasilhames de água e jogando pedras nos telhados das casas. Ele virou bicho aos doze anos de idade e quando toma birra com uma pessoa ela tem que se mudar de terra.

Aquela altura, depois de ouvir, atentamente, a história de Romãozinho, urgia molhar a garganta e beliscar um churrasquinho de carne de bode, ali na beira do rio. Para minha surpresa e dos demais, a cachaça e os tira-gostos desapareceram num encanto.

Ainda ouvimos uma gargalhada estridente, que ecoava na curva do rio, enquanto regressávamos  ao porto das Pontas das Pedras.


Ao anoitecer chegamos  a  XiqueXique em tempo, ainda,  de vermos o deslumbrante por do sol que se descortinava  no horizonte  da ipueira. 
Na Avenida J.J. Seabra,  já refeito do susto, fui induzido a fechar o corpo, com  um brinde de januária,  no bar de Manezim, rezando alguns benditos e, em especial, o Salmo Noventa e Um.

Nilson Machado de Azevedo
 
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A história verdadeira de um pescador do Velho Chico

In  

As primeiras chuvas anunciavam um inverno de fartura. Os umbuzeiros arrastavam os galhos pelo chão, carregados de frutos ainda verdes.  As gaivotas negras emigravam para os lugares longínquos no pé de serra e os bandos de marrecos, patos, garças e galinhas d’água voavam sincronizados, a reconhecer o terreno do alagadiço.

Zé Pequeno, nascido nos barrancos do Velho Chico, criado para enfrentar o rio, já comemorava a época das plantações que se avizinhava nos lameiros,  preparando também as suas tarrafas e redes para o momento oportuno quando as águas se derramassem pelo Vale,  adentrando o  canal do Guaxinim ao norte da ipueira que banha Xiquexique.

No Mangue Fundo e no ilhote do Pau Seco, as pescarias iniciavam-se, numa lufa-lufa de dezenas de canoas que barravam com redes a passagem dos peixes. Era abundante a pescaria. Em terra uma multidão de mulheres e crianças empunhava facas a destripar e salgar o pescado.

As pescarias realizavam-se pela manhã ou à noite e o lançamento de uma rede demandava o esforço de, pelo menos, doze homens, elevando-se algumas vezes para trinta. Dois paquetes eram conduzidos ao ponto da pescaria e dali se separavam em direções opostas quando era jogada, pouco a pouco, a rede que ia se estendendo pelas águas. Em seguida, os canoeiros remavam para as margens do rio, puxando as cordas presas nas extremidades da rede. No barranco, já postado, um grupo iniciava a puxada da rede, até fechá-la. Alguns pescadores, em suas canoas,  acompanhavam as bordas da malha até à margem sem deixar  que as curimatãs, os piaus e os  surubins escapassem. 

A família de Zé Pequeno, hoje moradora de Xiquexique, retirante da submersa   Pilão Arcado, foi, naquela época, vegetar nas famigeradas agrovilas, lá para as bandas  de Bom Jesus da Lapa, desprotegida até pelo Santo milagroso e compulsada pelas idéias populistas do entusiasmado governo militar que, naquele tempo atroz,  dos anos 70, ditava as regras da vida e da morte do povo brasileiro. Construiram a Barragem de Sobradinho com muitas promessas para os pescadores de Casa Nova, Sento-Sé , Remanso e Pilão Arcado.

No entanto, os pescadores costumavam dizer em versos que Sobradinho deu luz, mas não pariu, cantoria,  entoada pelos subversivos que enxergavam a miséria progressiva no Vale do São Francisco.

Até que sobrevieram os parreirais e a perspectiva do Baixio, frutos da  irrigação ou da imaginação!

 
Nilson Machado de Azevedo
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FREI LUIZ

A vila de Utinga pertence ao município da Barra.  É banhada por um canal, braço do Rio São Francisco. 

Foi em Utinga que vi, pela primeira vez e única, Dom Luiz Cappio. Era um dia de festa da padroeira do lugar - Nossa Senhora da Imaculada Conceição - e o frei celebrava a missa enquanto o povo soltava foguetes e rojões. Um mastro erguia-se em frente da igrejinha de estilo barroco, construída no século XIX.

Não me aproximei de Frei Luiz, mas ouvi, atentamente, de longe, o seu sermão em linguagem atingível para aquela comunidade simples de fiéis sertanejos.

A figura emblemática daquele frade franciscano confundia-se com as minhas leituras sobre teologia da libertação da qual jamais fui militante, embora seja simpatizante ardoroso da libertação do Rio São Francisco ante aos projetos fantasiosos que lhe impigiram.  Quem vive ou viveu nas barrancas são franciscanas, não precisa se debruçar nos tratados elaborados  por palpiteiros tecnocratas fincados nos gabinetes refrigerados de Brasilia, para saber que as águas  do nosso rio  são sagradas e intransponíveis. É um dogma inatingível pelos ímpios forasteiros que desconhecem  os seus segredos.   

Somente eles, os ímpios, foram favoráveis à sangria do Velho Chico, apelidada de transposição. Os nossos irmãos do nordeste setentrional são historicamente lesados na sua boa-fé pelos poderosos de plantão que sempre os enganaram e ainda persistem com as suas artimanhas mirabolantes. A “indústria da seca” poderá gerar a “indústria das águas” com a injeção de bilhões de reais que, decerto, se evaporará nas algibeiras fundas, hipócritas, dos homens de ventres avantajados pela gordura da corrupção.

Do alto da serra de Santo Inácio, Frei Luiz teria a mesma visão de São Francisco que do alto da cidade de Assis contemplou a beleza da planície ao seu redor e amou a natureza sem artifícios.

Ao deixar a vila de Utinga naquele dia de festa, tive o pressentimento de que jamais voltaria ali pelo rio, pois as dificuldades para alcançarmos a ipueira de Xiquexique, navegando pelo canal, somadas aos bancos de areia, quase impediram o nosso barco  de chegar ao porto da Ponta das Pedras. Mesmo assim, a fé me removerá até Utinga, em peregrinação, para rezar pelo Velho Chico na Capela da Imaculada Conceição.

Nilson Machado de Azevedo

 
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