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A herança da cangaceira Maria

quinta-feira, 19 de junho de 2014



A baiana Maria Bonita ainda era Maria de Déa e tinha 19 anos quando resolveu seguir com Lampião e o bando para a vida no cangaço. Ela nem podia imaginar, mas o amor que a levou a se unir ao Rei cangaceiro a transformou em símbolo de ousadia. “Maria Bonita foi a primeira mulher a virar cangaceira. Foi ousada, corajosa, rompeu preconceitos. Foi contra a sociedade vigente da época, contra a Igreja Católica. Uma adúltera, porque não havia divórcio naquele tempo”, conta a pesquisadora Semira Adler. (ver matéria sobre a união de Maria B. e Lampião).  

A figura da cangaceira se eternizou como imagem da mulher nordestina, especialmente, a sertaneja. Basta olhar para uma pintura, uma boneca de barro ou uma fotografia que a retrate. “Maria Bonita virou um mito porque ao longo desse tempo enalteceram em música, no folclore, na literatura de cordel, a indumentária, a dança. Tudo isso foi sedimentando a imagem de um mito de mulher”, afirma Adler.

Mito que virou símbolo de força e bravura feminina em uma região que, até os dias de hoje, é essencialmente machista. “Uma mulher sertaneja, nordestina, fazer o que ela fez não é para todo mundo. Até hoje as mulheres sofrem preconceito, têm que se mostrar fortes. A mulher tem que mostrar que é capaz; imagine naquela época!”, observa a neta de Maria Bonita, Vera Ferreira.

O amor, a coragem, a ousadia, a determinação, o pioneirismo. Conhecer a história de Maria Bonita é ter a certeza de que ela não foi uma mera coadjuvante no universo do cangaço. Contribuiu para a história, e revolucionou costumes da época. As atitudes tomadas por essa mulher naquele Nordeste do início do século 20 representam a coragem de desafiar uma cultura da qual o povo nordestino ainda não se viu livre.


Maria Bonita e os dez irmãos foram criados numa pequena casa, no meio da caatinga baiana. O povoado de  Malhada da Caiçara fica a 38 quilômetros da cidade de Paulo Afonso, no Sertão do São Francisco. Abandonada por quase trinta anos, desde a saída dos filhos e com a morte de Dona Déa, mãe de Maria Bonita, a casa da família foi reformada e transformada em um museu/memorial há cinco anos. É difícil chegar lá sem o acompanhamento de um morador ou guia, já que são muitos e muitos quilômetros em estradas de terra batida, cujos referenciais são inteligíveis para quem não é da região ou está pela primeira vez na área. 

Casa onde morou Maria Bonita
Uma placa de metal indica a chegada no destino. Construído em taipa, o imóvel teve preservada a estrutura arquitetônica original. Em aproximadamente 50 metros quadrados, há cinco cômodos e um pequeno depósito externo, que mais parece um quarto sem janelas anexo ao terraço. No cômodo, eram armazenados alimentos e grãos cultivados na roça da família. A entrada principal da casa se dá pelo terraço, que é seguido por uma sala (o ambiente mais amplo da residência), onde, de acordo com o historiador João de Souza Lima, eram espalhadas algumas redes e esteiras, que acomodavam a família. A luz natural entra pela única janela do cômodo que, à noite, era iluminado por uma lamparina à base de querosene.

Em seguida, uma espécie de corredor, largo e curto, que separa os dois pequenos quartos - um do casal e outros para as filhas mais novas - e a cozinha. Na cozinha, os visitantes encontram uma movelaria da época: uma espécie de balcão, também em taipa e apoiado no chão por quatro galhos de madeira, que servia como suporte para um fogareiro a lenha, e  alguns reservatórios de água. A casa não dispõe de banheiro interno ou externo – as necessidades eram resolvidas no mato.

A curiosa fonte de água mais próxima fica a uns trezentos metros dali. O pesquisador João de Souza Lima, que também participou do projeto para a restauração do lugar, explica o armazenamento de águas nas rochas: “algumas rochas apresentam fendas, então, os sertanejos aumentam esses orifícios que permitem o armazenamento das águas das chuvas. Antigamente havia mais, porém ainda há algumas rochas desse tipo por aqui. Na época, por aqui, a uns 300 metros mais ou menos, havia muitos rochedos desse tipo, que abasteciam as famílias da área.”

Desde a reforma, a casa abriga um memorial onde estão expostas algumas fotografias tiradas entre os anos de 1935 a 1938. São imagens de Maria Bonita, Lampião e de outros cangaceiros da época – mas nenhum dos registros foi feito na casa ou no entorno. Em geral, as imagens são réplicas do trabalho do retratista libanês Benjamim Abraão Botto, que conheceu Lampião na segunda metade da década de vinte e pode fazer algumas fotos e filmagens do bando.

Outro ângulo da casa onde morou Maria Bonita
Por fora, a área da casa foi delimitada por uma simpática cerca de madeira, inexistente na época, e teve o quintal arborizado por gramíneas, uma barriguda e um umbuzeiro, que oferece sombra para dois bancos de pedra – licenças poéticas vindas com a revitalização do ambiente, que se transformou numa das opções para os turistas.

A entrada custa dois reais, e os visitantes também podem ouvir histórias sobre o passado e a vida de Maria Bonita contada por primos e pela sobrinha neta da cangaceira, Adenilda Alves, que é também funcionária do lugar.

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