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A histórica eleição de Cacareco

segunda-feira, 28 de julho de 2014




 

Cinquenta e Cinco anos atrás, diante da corrupção na Câmara Municipal, o eleitorado paulistano fez do rinoceronte Cacareco o candidato mais votado em uma eleição para vereador

O ano era 1959. Getúlio Vargas havia morrido e, para muita gente, morreu também o que restava da moralidade nos poderes públicos. O governador de São Paulo era Adhemar de Barros, uma espécie de antepassado político de Paulo Maluf. Como esse tipo de coisa não muda muito, o eleitorado estava revoltado com a Câmara Municipal que, pra variar, não estava se comportando muito bem.

Daí, havia o rinoceronte Cacareco, que, vale dizer, era uma fêmea, apesar do nome.

Ele estava nas notícias porque havia vindo do Rio de Janeiro, emprestado por seis meses, para abrilhantar a inauguração do Zoológico de São Paulo. Os seis meses iam se passando e os paulistas cogitavam a ideia de dar um calote e não devolver o rinoceronte.

Veja você: no meio do mar de lama da Câmara Municipal, em pleno período eleitoral, o assunto era o rinoceronte.

Não que os políticos da época não ajudassem. Havia um de 230 kg, cujo slogan era “vale quanto pesa”. Outro andava por aí com uma onça e dizia: "Eleitor inteligente vota no amigo da onça".

O jornalista Itaboraí  Martins brincou com isso, lançando a candidatura de Cacareco ao cargo de vereador. E não é que a ideia pegou?

Naquela época, a eleição era na base do papel e do envelope. O eleitor recebia um envelope das mãos do mesário e, dentro dele, colocava a cédula do seu candidato, fosse ele quem fosse. No caso, houve uma adesão massiva à candidatura de Cacareco e várias gráficas, de brincadeira, imprimiram cédulas com o nome do bicho e muita gente achou legal ir pra rua e fazer campanha em nome do rinoceronte.

O que aconteceu a seguir parece piada, mas Cacareco recebeu coisa de 100 mil votos.

Parece coisa pouca diante do eleitorado de hoje, mas presta atenção no resto dos números. O candidato mais votado naquela eleição não teve mais que 11 mil votos, e mesmo o partido que elegeu a maior bancada teve, ao todo, 95 mil votos.

Sua excelência, o rinoceronte Cacareco nem pode comemorar. Dois dias antes da eleição, o bicho foi devolvido para o zoo do Rio, sem muito alarde, como um anarquista subversivo. Poucos anos depois, o rinoceronte vereador morreu prematuramente, antes de completar dez anos de idade.


O estrago, porém, já havia sido feito. Cacareco ganhou até as páginas da revista Time que citava um eleitor: "É melhor eleger um rinoceronte do que um asno".
 
R7

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