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Nós, os nordestinos da São Paulo de Piratininga

domingo, 25 de janeiro de 2015



 

Grupos sociais que ajudaram a construir São Paulo, como os italianos, portugueses, japoneses, árabes, judeus, muçulmanos e espanhóis, encontraram na metrópole paulista espaço para enaltecerem suas origens e estudá-las. Museus, escolas ou bairros inteiros serviram de palco para representações de povos heróicos, sofridos, trabalhadores de extrema importância e influência cultural para os paulistanos.

Para os nordestinos, que somam com seus descendentes mais que o dobro da quantidade de representantes de origem estrangeira, restou o esquecimento e o preconceito dos que se julgam filhos mais legítimos de São Paulo.


A forma de tratamento que lhes cabem demonstra que quem veio do Nordeste parece incomodar a cidade. “Baiano”, “paraíba”, “ceará”,“cabeça chata”, “pau-de-arara”... Não são raros os termos de cunho pejorativo usados para se referir aos emigrantes como “gente feia, atrasada, brega e inferior”.

Essa imagem, que parece nunca ser retocada pelo tempo, encobre um dos mais significativos e atuais fenômenos sociais brasileiros, mas não impediu que São Paulo se tornasse de fato a capital mais nordestina do País.


Traços da cultura nordestina estão presentes na culinária, nas danças, festas, na política, nas artes e  até em algumas expressões e ditos populares. Falta apenas que essa herança cultural seja devidamente preservada, estudada, documentada e divulgada.



Avenida Paulista e o MASP
A trajetória das pessoas na região do semi-árido é pensada com uma quase paralisia histórica: nada muda, são sempre as mesmas abordagens e propostas recorrentes. É frequente encontrarmos nos discursos de historiadores afirmações como “O problema da seca e das migrações no sertão nordestino é histórico”.

Nesse contexto, “ser histórico” é aquilo que sempre ocorreu e que não tem solução, isto é, tem um sentido de permanência. A banalização e a invisibilidade acabam por transformar o semi-árido em uma região aparentemente sem história. “Quando afirmam que a pobreza e a migração são históricas, parece-me que lhes dispensam o mesmo tratamento dado às secas, ou seja, busca-se naturalizar um dado que é social”, comenta a professora  Isabel Guillen, do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco.


A falta de interesse dos intelectuais só começou a diminuir após a década de 1970, quarenta anos depois da intensificação do processo de migração. E ainda hoje, os estudos realizados sobre o assunto são escassos. Fotos, objetos, depoimentos, documentos, obras de arte, artesanatos e tudo aquilo que costuma fazer parte de estudos e acervos de museus, deixaram de ser recolhidos e podem ter se perdido para sempre.

O desinteresse de universidades e do poder público pelo resgate e a discussão dessa história vai ao encontro dos que querem manter as causas do êxodo sempre vivas – a concentração de terras, a falta de planejamento e políticas de desenvolvimento, e a existência de mão-de-obra sempre barata, graças ao desemprego abundante.


São Paulo, que perdeu há muito tempo a imagem de “Eldorado do Trabalho”, ainda atrai brasileiros que querem mudar de vida. Mesmo sem figurar como uma real alternativa à vida pobre do Nordeste, a falta de opções faz da cidade um destino tradicional e, de certa forma, familiar, já que carrega a cultura nordestina em todos bairros, avenidas, praças e ruas da maior metrópole da América Latina.
 
Fonte: Migrações de nordestinos para o sudeste
Cap. 13

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