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A história verdadeira de um pescador do Velho Chico

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

In  

As primeiras chuvas anunciavam um inverno de fartura. Os umbuzeiros arrastavam os galhos pelo chão, carregados de frutos ainda verdes.  As gaivotas negras emigravam para os lugares longínquos no pé de serra e os bandos de marrecos, patos, garças e galinhas d’água voavam sincronizados, a reconhecer o terreno do alagadiço.

Zé Pequeno, nascido nos barrancos do Velho Chico, criado para enfrentar o rio, já comemorava a época das plantações que se avizinhava nos lameiros,  preparando também as suas tarrafas e redes para o momento oportuno quando as águas se derramassem pelo Vale,  adentrando o  canal do Guaxinim ao norte da ipueira que banha Xiquexique.

No Mangue Fundo e no ilhote do Pau Seco, as pescarias iniciavam-se, numa lufa-lufa de dezenas de canoas que barravam com redes a passagem dos peixes. Era abundante a pescaria. Em terra uma multidão de mulheres e crianças empunhava facas a destripar e salgar o pescado.

As pescarias realizavam-se pela manhã ou à noite e o lançamento de uma rede demandava o esforço de, pelo menos, doze homens, elevando-se algumas vezes para trinta. Dois paquetes eram conduzidos ao ponto da pescaria e dali se separavam em direções opostas quando era jogada, pouco a pouco, a rede que ia se estendendo pelas águas. Em seguida, os canoeiros remavam para as margens do rio, puxando as cordas presas nas extremidades da rede. No barranco, já postado, um grupo iniciava a puxada da rede, até fechá-la. Alguns pescadores, em suas canoas,  acompanhavam as bordas da malha até à margem sem deixar  que as curimatãs, os piaus e os  surubins escapassem. 

A família de Zé Pequeno, hoje moradora de Xiquexique, retirante da submersa   Pilão Arcado, foi, naquela época, vegetar nas famigeradas agrovilas, lá para as bandas  de Bom Jesus da Lapa, desprotegida até pelo Santo milagroso e compulsada pelas idéias populistas do entusiasmado governo militar que, naquele tempo atroz,  dos anos 70, ditava as regras da vida e da morte do povo brasileiro. Construiram a Barragem de Sobradinho com muitas promessas para os pescadores de Casa Nova, Sento-Sé , Remanso e Pilão Arcado.

No entanto, os pescadores costumavam dizer em versos que Sobradinho deu luz, mas não pariu, cantoria,  entoada pelos subversivos que enxergavam a miséria progressiva no Vale do São Francisco.

Até que sobrevieram os parreirais e a perspectiva do Baixio, frutos da  irrigação ou da imaginação!

 
Nilson Machado de Azevedo

2 comentários:

Reinadi Sampaio disse...

ALMA MIGRATÓRIA...

No alto do campanário
a melodia que se ouve
ao repicar dos sinos
chega-nos através dos ventos
que balouça as asas
da gaivota esvoaçante
afastando-se do vale
revelando sua alma migratória
para as maravilhas do grande voo
– um “Voo noturno” –, solitário.

À espera da luz da nova aurora.

Reinadi Sampaio

8/12/14 08:33
Nilson disse...

À espera de nova aurora
transcende aqui e agora
a plêiade dos esquecidos
É sonata que me aflora
que tocaste e só hoje ouvi
aqui nos Campos Elísios

Venha logo sem demora
nesses versos que sintetizam
minha rima, meu martírio
ao versar u'a nova aurora
no verso que corrobora
o meu ego inexpressivo

9/12/14 15:30

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