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As revelações de um estagiário num boteco baiano

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015




Perguntaram-me, outro dia, se eu trabalho ou se vivo flauteando tal qual  um  vagante deitado numa rede à beira do mar da Bahia, de pernas para o ar ou coisa que o valha, enquanto eles, meus intrépidos questionadores, dizem que ralam à beça, dando um duro danado, para conseguir colocar o feijão com arroz em casa.
 

Feito este exórdio, resta-me revelar que na condição de estagiário de direito, trabalho igual a  um condenado em regime semi-aberto. Acordo, diuturnamente, antes do nascer do sol e ainda na alvorada vou para o escritório  onde passo algumas  manhãs, tardes e  noites, a depender do horário das aulas na faculdade, colhendo no computador jurisprudências para o arrazoado do chefe do escritório.

Rotineiramente o chefe nos avisa que será implacável se, porventura, algum  estagiário deixar de lhe inteirar  sobre prazo processual  prestes a ser vencido.  Na hipótese, teremos o olho da  rua como  a aplicação da pena mais branda, além da implementação de  acessórios  decorativos de todos os brocardos jurídicos publicados em latim ou mesmo em português arcaico.

Aprenderemos, também, pela interpretação analítica, a intransparente teoria do "domínio do fato", lançada em segunda mão  pelo aposentado Dr. Quinca Barbosa, que não passou no exame da OAB, porque a ele não se submeteu, mas recebeu, mesmo assim,  a cobiçada carteira de advogado.

Nós estagiários  jamais perdemos  prazos processuais aqui neste escritório de famosos juristas baianos, tanto é que no dia de Santo Ivo, que este ano caiu numa sexta-feira 13  à noite, bem assim  em todo 11 de agosto de cada ano, estamos a comemorar, num boteco no Largo do  Campo da Pólvora, que fica defronte ao vetusto Forum Rui Barbosa, bebendo batida de limão e comendo galinha de molho pardo  aprontada pela bela afro-greco-baiana Têmis, no intuito de que esqueçamos,  momentaneamente, do Vade-Mecum e das doutrinas que nos perseguem.

 
Nilson Machado de Azevedo

1 comentários:

Anônimo disse...

Vou abrir uma questão contra uma loja de auto peças por vender umas peças empenadas que lascou com meu carro e acho que vou contratar este estagiário.

4/12/14 08:12

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