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O MONSTRENGO DE XIQUEXIQUE

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015



As feridas urbanas estão expostas a traumatizar a estética desta cidade que um dia, perdido no tempo, foi esconjurada pelo Padre Francisco Sampaio, quando, no inicio do Século XX, foi ele escorraçado de XiqueXique,  embarcado, na marra, numa canoa furada pelo fato de  haver enfrentado de peito aberto os "coronéis" xiquexiquenses  em razão desse religioso  defender o povo humilde e carente da sua paróquia.

Em XiqueXique há feridas,  em forma de muralha,  com ardentes sintomas na orla fluvial. O monstrengo de concreto que se ergue desafiador, sem enfrentar a clava forte, sufoca com  os fluidos de ácido úrico e coliformes exteriorizados pelo metabolismo humano, despejados nas quinas sombrias do famigerado “cais”, num premente estado de necessidade sem corar as impúdicas faces dos agachados.

A ocupação comercial dos buracos que se abrem sob o muro, foi planejada e permitida por algum artista, surreal, “urbanista”, cuja obra impunemente erguida é de causar náuseas, pelo mau gosto estético e odor, para aflição dos escultores Joan Miró e  Salvador Dali, daqui e de alhures,  ora citados, pretensiosamente, em homenagem à linguagem eufêmica.

Quem sabe se  um dia, também perdido no tempo, será apagada  de XiqueXique a idade das trevas que insistentemente turva o céu da Ipueira, para dar  lugar ao renascimento do cais.

Com a fé que não me costuma falhar,  creio que nesse  dia de hosanas e louvores, o poluto monstrengo, objeto de olhares assimétricos dos viajantes que porventura nos visitam, será expurgado das margens da Ipueira, ao som do Réquiem de Wolfgang Amadeus Mozart.


Nilson Machado de Azevedo






 


3 comentários:

Reinadi Sampaio disse...

Bom ver-te de volta, embora, em um texto, cheio de tristeza de uma realidade assustadora.../ Fragmentos de 'carinhos em versos' que escrevi a Xique-Xique:
{Ser}tão... Xique-Xique que me faz ser poeta

{...} Vês, as calmas desse rio?
... Mareta devagarzinho...!
Daqui, de longe, eu sorrio
Qual cantar de passarinho!

Essas nuvens passageiras...
Sob esse sol inclemente,
Levas nas asas trigueiras
Minha saudade presente!

Meu coração forte bate
Como nos céus o trovão
Vai-se o tempo – bate rebate,
Dentro do peito, a paixão!

Paixão, que não passa, não,
– Cada dia aumenta mais –
Mais uma vez olha o cais
– O ‘Príncipe do Sertão –!

Era tão belo –, e tão rústico,
Batia forte em meu peito,
– Canção do rio – em acústico... –,
“Paredão” o deixou sem jeito...

Isolaram todo leito,
Toldaram nossos olhares
Para um por de sol perfeito!
Ah, homens ‘espetaculares’... {...}
___________________________

Abraço fraterno e poético.
Reinadi Sampaio

4/12/14 13:28
Nilson disse...

Na tristeza
um ramalhete
é uma flor
quando o poeta
fingidor
diz que sente
a mesma dor
que me dói
textualmente...

8/12/14 04:02
Reinadi Sampaio disse...

[...] “tinha cal, tinha sal, tinha naquele verbo áspero
a dor arenosa do deserto.” (Raduan Nassar, In: Lavoura arcaica)

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8/12/14 08:02

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