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Suas excelências, os doutores brasileiros

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016




Muitos brasileiros fazem a maior festa pelo fato de entrarem em uma faculdade.  Isso é natural e não lhes tiro a razão!
Todavia, outros tantos brasileiros não têm a mínima preocupação se o curso é ruim. Se o professor é picareta e faltoso. Se não há critério pedagógico. Se não é preciso ler o texto exigido no programa para passar na prova. Ou se a prova é mera formalidade e se passa assim mesmo  ou se passa assim mesmo na base do PP. (pagou, passou).
Por isso há  comemoração mesmo que se saia do curso  com a mesma bagagem cultural, intelectual e técnica de  quando se entrou na faculdade e com a mesma condição que nasceu: A de indigente intelectual, insensível socialmente, sem visão minimamente crítica ou sofisticada sobre a sua realidade, do mundo atual e seus conflitos. 
É por isso que existe tanto médico que não sabe operar. Tanto advogado que não sabe escrever ou interpretar um texto. Tanto psicólogo que não conhece Freud ou Jung. Tanto jornalista que não lê jornal...
Já vimos, por exemplo, coordenador de curso gritar, em dia de formatura, como líder de torcida em dia de jogo: “vocês, formandos, são privilegiados. Venceram na vida. Fazem parte de uma parcela minoritária e privilegiada da população”.
 
Por trás desse discurso está uma lógica perversa de dominação. Uma lógica que permite colocar os operários e trabalhadores braçais em seu devido lugar. Por aqui no Brasil, não nos satisfazemos em contratar serviços que não queremos fazer, como lavar, passar, enxugar o chão, lavar a privada, pintar as unhas ou trocar a fralda e dar banho  nos filhos.

Aproveita-se, até a última ponta, o gosto de dizer: “estou te pagando e enquanto estou pagando eu mando e você obedece”. Para quê chamar a atenção do garçom com discrição se o "distinto" pode fazer um escarcéu se pediu batata-fria e ele entregou mandioca frita?   (Sem falar aqui dos excelentíssimos senhores doutores da área jurídica, tristemente famosos pelas "carteiradas").       
No caso da síndrome tupiniquim da dominação,  o doutor está querendo lembrar a todos que estudou, que é  formado e trabalhou para sentar à mesa de restaurante e, nessa condição, merece ser servido com prioridade e ainda aplaudido pelos garçons. E isso não é virtual. É real.
No entanto, é de se dizer e aprender: Pobre do país cujos diplomados servem, na maioria dos casos, para ainda corroborar essas posições muito em voga no Brasil do Século XIX.
                                    nilsonazevedo@globo.com 






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