Lula é levado à prisão

sexta-feira, 24 de julho de 2015



 
Lula narra com detalhes os momentos em que foi preso, no dia 17 de abril de 1980, “às seis da manhã”. “Na minha casa estavam o Geraldo Siqueira (companheiro de militância e posteriormente um dos fundadores do PT) e o Frei Betto (escritor)”, conta. “Quando eles [os militares] bateram na porta, o Frei Betto falou ‘olha, a polícia tá aí’. Aí eu saí na porta, não tinha nem lavado o rosto ainda, e disse ‘espera, que eu vou me trocar’, e eles ‘não podemos esperar”, contou. “Eu voltei para dentro de casa e fui me trocar. Vou fazer o que?”, disse, rindo.

Lula conta, aparentemente sem traumas, que se sentiu “salvo” no caminho para o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), no centro de São Paulo. “Era uma madrugada com muita cerração, e pela primeira vez eu tive medo, porque eu dizia ‘não custa nada eu aparecer morto na Anchieta e parecer um troço qualquer’”, conta, insinuando que seria fácil simular uma morte acidental sob aquelas condições. Ouviu no rádio do carro que o levava à prisão a notícia de que o presidente do Sindicato acabara de ser preso. E ficou aliviado. “Aí eu disse ‘tô salvo’”.

Chegando à prisão, o ex-sindicalista se sentiu ‘importante’. “Cheguei ao DOPS e me levaram para uma sala. Fui tratado como [se estivesse em uma] prisão VIP”, disse. “O tratamento foi bom. O Tuma (Romeu Tuma, então diretor do DOPS; 1931 – 2010) me tratou dignamente, porque a minha mãe estava com câncer”. Lula conta que recebeu permissão para sair da prisão algumas vezes para visitar a mãe doente.

Os depoimentos que deu à polícia na época da prisão, diz, foram todos por escrito. “Não tinha ninguém pra me fazer pergunta. O Tuma me dava as perguntas por escrito e eu ficava sozinho respondendo”, narra. Ao longo dos 31 dias de prisão, Lula diz ter feito uma assembleia com os investigadores, “expliquei que eles não podiam usar relógio caro [se quiserem reivindicar aumento] senão não iam acreditar que eles ganhavam mal”, contou, rindo.

Embora fosse contra, participou de uma greve de fome por seis dias. “Eu achava que judiar do meu próprio corpo não era comigo, mas o pessoal [13 presos no total] decidiu e entramos em greve de fome”, conta. “O Tuma entrou na cela e fez um escarcéu, dizendo que a partir daquele momento, não ia ter nenhum tratamento especial, que ia tirar o rádio, suspender os jornais...”, conta. “Fez o discurso dele, o rádio estava ligado, ele foi embora e o rádio continuou ligado”, disse, rindo, mais uma vez.

Lula não foi torturado. Tampouco sofreu pressão psicológica ou teve sua família apreendida pelo regime, como ocorreu com muita gente. Para ele, foi “uma burrice” os militares terem o prendido. “[a prisão] foi uma motivação a mais para a greve continuar”, conta. “Mas foi uma lição de vida”, diz. “Morreram trabalhadores, mas para a luta, valeu”.

Embora tenha sido sob seu Governo (2003 – 2011) que muitos dos arquivos da ditadura foram abertos, Lula acredita que ainda “deve ter muita coisa nas mãos de alguém”. Em tempos em que uma parcela da população foram às ruas pra pedir intervenção militar, o petista diz que é preciso cautela para tratar do tema. “É preciso tratar disso com o carinho que o tema exige”, disse. “Não estamos vivendo tempos fáceis”.
El País

 

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