ESPERANDO A PRIMAVERA

quarta-feira, 19 de agosto de 2015


 
A primavera é uma estação florida,
Cheia de imenso, divinal fulgor;
De flores enche o coração da vida,
E enche de vida o coração da flor.

 
Estou a escrever estas mal digitadas linhas neste mês de agosto. Um mês  que o meu lado supersticioso sempre aflora imperativamente.  

Minha sorte está lançada.

Os fantasmas de agosto surgiam em nuvem de poeira formada pela ventania que a todos atingia e cercava na subida da Avenida J.J. Seabra quando a gravidade impunha e estatelava ao chão, ainda sem paralelepípedos, muito pau d’água, cachaceiros contumazes de todos os gêneros, raquíticos de todas estirpes, além dos estudantes do Cézar Zama e do Senhor do Bonfim desafiantes dos redemoinhos que zuniam  na famosa e resplandecente avenida xiquexiquense do final dos anos sessenta.

Com arraigada mania de pescar, sobrevivi, num mês de agosto, a um naufrágio de paquete nas imediações da Ilha do Paulista, quando o vento, que soprava  desde as dunas do Icatú, enfurecido por Eólo, partiu o mastro da pequena e rústica embarcação arrastando-a  para o fundo do rio.

Nas ditas circunstâncias, a esperança sempre se  descortina com o alvorecer do próximo mês de setembro, a rememorar as festas da primavera em Xiquexique.

Foi numa festa da primavera que os professores do Colégio Municipal Senhor do Bonfim destacaram  alguns alunos para homenagear  a estação primaveril, tendo como sugestiva temática as plantas, flores e frutos.

Ergueu-se um palanque na Praça Dom Máximo.

Os alunos, escalados, haveriam de representar o script das plantas, flores e frutos, conforme as incumbências do  que lhes foram destinados a protagonizar:


“Eu sou a Rosa, a rainha das flores, que perfuma todos os jardins da cidade” declamava um linda cabrochinha da 7ª série.


“Eu sou o Milho e tenho mil e uma utilidades”,  discursava um colega, o primeiro da classe.


“Represento o Feijão, a riqueza da nossa região” rimava outro colega.

Todos, compenetrados, incorporavam os produtos nobres da nossa flora, desempenhando um papel individualizado .

Sobrou pra mim, no entanto, o script para interpretar um personagem que ninguém queria explanar, conquanto, soube depois, foi usado até nepotismo para que os alunos privilegiados, filhos e netos da burguesia conservadora,  deixassem de representar a planta que me coubera por exclusão. Aquilo valia nota. Criei ânimo e com coragem subi à ribalta.  Fantasiado da planta que eu incorporava na condição de  artista coadjuvante,  segurei firme o microfone balanceado pelo radialista e sonoplasta Mário Velho, tomei a palavra e bradei com altivez artística:

 -Eu sou o FUMO! Ataco os ricos, ataco os pobres, desde os baixos operários aos altos milionários. Ataco o pulmão, o cérebro e o cerebelo, ataco as fossas nasais que é o nariz, que quando o fumante vai dizer bolacha, pronuncia “munacha".

Nesse instante, uns  gaiatos que assistiam a cerimônia, “caíram” na risada e nos apupos. No microfone, embora cortado o som, mandei todo mundo para o devido lugar, resultando-me, conseguintemente, uma pena de  repreensão do diretor do colégio e vermelho no meu boletim escolar, no item comportamento.

Desnecessário dizer que desse dia em diante, desisti de ser ator.

Nilson Machado de Azevedo

3 comentários:

Anônimo disse...

Xique-Xique só tem artista, né?

19/8/15 14:53
Nilson disse...

É.

19/8/15 19:04
telma disse...

Eu sou a menina que fez o papel da rosa.
Eu era aluna do ginásio Sr, do Bomfim.

19/8/15 22:31

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