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O drama da classe média da rua de baixo do Brasil

segunda-feira, 19 de outubro de 2015



Não seria correto caracterizar a classe média como uma camada social atrasada por natureza e sempre dada à repercussão das ideias reacionárias. Sua posição intermediária entre as classes dirigentes e os trabalhadores explorados faz com que oscile econômica e politicamente, podendo assumir, dependendo da situação histórica, posições mais próximas dos de baixo ou dos de cima. A classe média brasileira, notadamente  a do Brasil de Baixo- dos Estados do Sudeste e Sul- ou   parcela dela, já tomou parte em movimentos progressistas em determinados momentos da nossa história como no episódio das lutas pela redemocratização a partir do final dos anos 1970. Apesar de gostar de ouvir a eloquência de Marilena Chauí ao tratar dessa classe, acreditamos que essa análise pode ser mais bem situada.

 

O fato é que hoje vemos a classe média saindo às ruas vociferando contra o comunismo, contra Cuba, contra a Venezuela e o chavismo, contra o programa bolsa-família, contra o PT, contra o MST, gritando contra a corrupção, em defesa da ética, ao mesmo tempo solicitando a volta dos militares ao poder e até lamentando que a presidente Dilma Rousseff não tenha sido enforcada pelas forças repressivas da ditadura civil-militar.

 

Nesse complexo encontramos desde os interesses escusos do PSDB por detrás dos atos realizados; a presença forte de visões absolutamente reacionárias e preconceituosas plantadas sistematicamente por veículos da grande mídia; a retomada anacrônica, completamente deslocada, de coisas como a propaganda anticomunista dos tempos da Guerra Fria; uma interpretação asinina do momento brasileiro que não consegue compreender o papel colaboracionista dos governos atuais; até a constatação dos estreitos limites das aspirações mesquinhas da classe média, incapaz de alargar seu horizonte de análise e de proposição para além dos muros de seus condomínios fechados.

 

A classe média que hoje sai às ruas é ignorante porque não é capaz de fazer a reflexão histórica e reconhecer que se não fossem as lutas populares ainda estaríamos trabalhando em jornadas de 12 horas semanais ou mais, sem as mínimas garantias e proteção social, as mulheres não teriam o direito ao voto e nem sequer teríamos o arremedo de ordem democrática que hoje temos.

 

Ela não consegue enxergar quem são os verdadeiros responsáveis pela alarmante situação social que vivemos, situação que a deixa, ela própria, tão desconfortável e insegura. A classe média, essa mesma classe que jamais foi padrão de comportamento ético no cotidiano, hoje vocifera contra o governo federal, mas não consegue ampliar seu foco para o Congresso e para o modus operandi das forças que estão no poder há séculos. Ela não consegue ver o que se passou anteontem com as privatizações ou o que se passou em matéria de corrupção recentemente em Minas Gerais e ocorre em São Paulo e noutros estados comandados pelos partidos que admira.

 

Enquanto a classe média tem a coragem de sair às ruas para reclamar porque não tem mais podido viajar ao exterior tantas vezes, porque não cogita mais trocar de automóvel com facilidade, porque diminuíram suas margens de especulação financeira, as esquerdas, os de baixo e os trabalhadores rurais sem terra que acampam sob a lona preta estão atuando politicamente inspirados em princípios de justiça, solidariedade, igualdade, tudo aquilo que ela, a classe média, só professa durante seus rituais religiosos dominicais ou no Natal, quando se derrama em caridade, mas ao mesmo tempo promove a segregação com as normas de utilização dos elevadores de serviço.

 

É essa gente, cujas preocupações se resumem ao limite de seu cartão de crédito e outras trivialidades egoístas, que está indo às ruas clamando por ética e agredindo os lutadores sociais que dedicam suas vidas ou seu tempo livre para lutar por um país solidário e fraterno.

 

Essa classe média é estúpida porque sai às ruas agredindo moralmente aqueles que lutam por um país melhor; aqueles que se ocupam de questões coletivas, como as injustiças sociais, as condições de vida do povo trabalhador, a destruição ambiental, a saúde pública, a educação pública, a questão indígena, a discriminação racial, a atual crise dos refugiados sírios ou a opressão em geral.

 

Trecho de texto extraído no Correio da Cidadania
Justino de Sousa Junior
"The marxista program of education and the principle of práxis"
 

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