Noite de sábado em Paris: casas de shows, bares, restaurantes e ruas desertas

domingo, 15 de novembro de 2015


Av. Champs Elysees em Paris- (ontem) sábado dia 14 de novembro
 
Mesas vazias, ruas desertas, bares sem vida: um silêncio pesado toma conta da noite parisiense, normalmente das mais animadas, 24 horas depois dos piores atentados que a França já conheceu. Em meio ao marasmo, alguns poucos baladeiros resolvem desbravar este silêncio, para "continuar a viver".

"Vamos curtir a noite até o sol raiar", avisa Jean Manuel Miquel de Flores, cantor e trompetista de 26 anos, que por nada desse mundo cancelaria seu show de música cubana.

"Vamos tocar hoje, é simplesmente o nosso trabalho. Tenho certeza que o pessoal vai comparecer", afirma o músico, na frente de um bar situado na rua Oberkampf, do 11º distrito de Paris, o mesmo do Bataclan, onde ocorreu um massacre que custou a vida de pelo menos 89 pessoas que assistiam a um show de rock.

Dono do bar onde Jean Manuel se apresenta, Majide Kerzazi também se recusa a ceder ao terror. "Não vamos dar razão a eles. Vamos mostrar que estamos vivos. Colocamos uma velinha em homenagem aos que se foram. A melhor forma de homenagear os mortos é continuar a viver. Não vamos sustentar a política do medo", opina.

Apesar do espírito de resistência de Jean Manuel e Majide, o ambiente não está para festa. Muitos restaurantes e bares estão vazios. "Normalmente, estamos sempre lotados no sábado, com 300 lugares preenchidos. Mas veja só, agora, temos apenas dois clientes. As pessoas cederam ao medo. Vamos fechar às 20h30", lamenta Manseri Bachir, dono do Café de Paris.

"Fechar? De jeito nenhum", garante Antoni Durand, gerente do pub La Mercerie. "Todo mundo está com medo, mas temos que manter a cabeça erguida", afirma, apesar da pouca afluência do seu estabelecimento no 'Happy Hour'.

Do outro lado da rua Oberkampf, as portas do Nouveau Casino, boate que abre a meia noite, vão permanecer fechadas.

'O lugar mais seguro do mundo'
A poucos metros do Bataclan, há uma pequena multidão, mas nada de baladeiros. Em meio às pessoas que se sucederam para colocar velas e flores em homenagem às vítimas, estão dezenas de repórteres de televisões do mundo inteiro fazendo passagens ao vivo.

Perto da casa de shows, o bar Chez Gaston está cheio, mas as mesas são usadas para colocar aparelhos usados pelos jornalistas, e não quitutes de culinária francesa

Além dos profissionais de imprensa, o estabelecimento também recebe alguns turistas estrangeiros, como os ingleses Rachel, de 25 anos, e Sam, 39, que bebem uma taça de vinho na varanda.

"Queríamos ver o local, para homenagear as vítimas. Durante o dia, não sabíamos o que fazer, ficamos no hotel, na frente da TV", lamenta o britânico.

"Aqui é o lugar mais seguro do mundo hoje. Eles não vão voltar aqui", garante Rachel, que lamenta o fato de não poder terminar a noite numa discoteca, como fariam normalmente.

"Queremos fazer de conta que tudo está bem, compartilhar o momento, não ficar sozinhos", afirma Benoît, num pub do canal Saint-Martin, perto do local onde atiradores mataram 15 pessoas, na esquina entre as ruas Bichat e Alibert.

"Já faz três horas que estou neste bar, e todo mundo só fala sobre isso", conta o rapaz de 26 anos, que se levanta para deixar o local, antes de ser impedido pelo vizinho Julien, que levanta sua caneca de cerveja: "Não está na hora de desistir, não agora"!

Benoît responde, constrangido: "isso não é Charlie Hebdo (os atentados de janeiro, que tiveram como alvo a redação de um jornal satírico), agora, todo mundo é alvo. É isso que muda. Eu me sinto perseguido por ser um cara normal".

 

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