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POR QUE LULA?

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016



Sétimo dos oito filhos de um casal de lavradores analfabetos que vivenciaram a fome e a miséria na zona mais pobre de Pernambuco, Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Melo, Luiz Inácio da Silva nasceu em 27 de outubro de 1945 em Caetés, que à época era um distrito do município de Garanhuns, interior de Pernambuco. Como ele mesmo disse:


"Somente quem passou fome sabe o que é a fome. Uma coisa é a fome de literatura. Uma coisa é a fome de você saber, por ouvir dizer, que alguém está com fome. Outra coisa é a fome de quem passa fome. Outra coisa é uma dona de casa ver o sol se pondo, um fogão de lenha com uma boca só, um pedacinho de madeira queimando, um pouquinho de água fervendo e não ter 300 gramas de feijão para colocar naquela água, não ter o arroz, não ter o leite e muito menos o pão. E não é apenas um dia. São vários dias, durante vários meses e, às vezes, durante vários anos".


Antes de chegar à presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva amargou três derrotas. A primeira derrota do homem de origem humilde, nordestino, torneiro mecânico, metalúrgico do ABC paulista, sindicalista e fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), veio nas eleições diretas após a redemocratização do país. Em 1989, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega ao segundo turno das eleições, mas perde para o candidato Fernando Collor de Mello (PRN) – o caçador de marajás - que recebeu amplo apoio da mídia e do empresariado que se sentiam ameaçados pelo "radicalismo" do ex-sindicalista de esquerda.


Naquela época, até a barba, ainda negra, cultivada por Lula causava arrepios na classe dominante que avistava com medo a possibilidade de ser governada por um homem que fugia completamente o perfil idealizado e cultivado pela "fina flor" e pela classe média. Um homem que embora fosse a cara do povo brasileiro e, talvez, por isso fosse odiado pela elite e pela oligarquia. De igual modo, o neófito Partido dos Trabalhadores(PT), fundado em 1980, apesar da presença de vários intelectuais, ainda não conseguia por si só arrebatar um número de pessoas suficientes para eleger o presidente da República.


Depois de ser derrotado por Fernando Collor, que acabou sofrendo o impeachment, Luiz Inácio Lula da Silva amargou mais duas derrotas para Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em 1994 e 1998.

Foram necessárias três derrotas e mudança de estilo, inclusive no vestir, para que a elite engolisse o "Sapo Barbudo", no dizer de Leonel Brizola. A elite, incluindo boa parte da classe média, política, econômica e social do país.


Finalmente, em 27 de outubro de 2002, derrotando o candidato da situação José Serra (PSDB), Luiz Inácio Lula da Silva é eleito o 35º presidente da República do Brasil.

Em 29 de outubro de 2006 Luiz Inácio Lula da Silva é reeleito presidente da República derrotando Geraldo Alckimin (PSDB). A rivalidade do Partido dos Trabalhadores (PT) com o PSDB aumentava a cada nova eleição.


Após deixar a presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva com o seu inegável prestigio político, alto índice de aprovação e enorme cacife eleitoral fez em 2010 sua sucessora Dilma Rousseff. A presidente Dilma, na eleição mais acirrada e disputada do país, se reelege em 2014, derrotando Aécio Neves, mais uma vez um tucano.

Inconformado com a derrota nas urnas o PSDB, DEM e outros partidos que se opõem ao projeto político e social do governo, continuam tentando no "tapetão" dos tribunais do país destituir Dilma Rousseff da presidência da República. Paralelamente há uma sórdida tentativa por parte dos setores mais conservadores e autoritários da sociedade brasileira em destruir Luiz Inácio Lula da Silva e tudo que ele representou e representa para o povo brasileiro e para o país.


Embora tenha deixado a presidência da República há cerca de seis anos, Luiz Inácio Lula da Silva continua sofrendo ataques preconceituosos e discriminatórios. Agora as ofensas estão acompanhadas de uma tentativa vil de criminalizar o ex-presidente.


Por que Lula? Porque ele é filho da miséria; porque ele é nordestino; porque ele não tem curso superior; porque ele foi sindicalista; porque foi torneiro mecânico; porque é fundador do PT; porque bebe cachaça; porque fez um governo preferencialmente para as classes mais baixas e vulneráveis; porque retirou da invisibilidade milhões de brasileiros etc.


Fosse Luiz Inácio Lula da Silva um homem de posses, sulista, "doutor", poliglota, bebesse vinho e tivesse governado para os poucos que detêm o poder e o capital em detrimento dos que lutam sofregamente para ter o mínimo necessário para uma vida com dignidade, certamente a história seria outra.

Grande parte daqueles que rejeitam Lula o fazem pelo que ele representa e pelo que ele simboliza. A elite nunca suportou ser governada por um homem do povo, com a cara e o jeito do povo brasileiro. Do mesmo modo que a elite não aceita ver pobres, negros e a classe operária saindo da invisibilidade para frequentar lugares, antes exclusivos das classes dominantes.


No que se refere aos excluídos e "invisíveis" Agostinho Ramalho observou que:

"Nos últimos anos, muitos deles têm sido vistos fora do 'seu' lugar: nos aeroportos, nos shopping centers, nos restaurantes. De repente, tornaram-se 'visíveis'. E isso choca e ameaça a classe que se acostumou historicamente a olhá-los 'de cima' e que agora se sente ameaçada de ser 'desalojada' do que sempre se acostumou a enxergar como o 'seu' lugar. O sentimento, agora, já não é de indiferença ('sou indiferente em relação a quem nem vejo'), mas de ódio ('odeio a quem vejo como ameaça para mim')".


Este mesmo "ódio" contra os excluídos (negros e pobres) é, também, direcionado a Luiz Inácio Lula da Silva quando ele passa de coadjuvante a protagonista, passando a ocupar a presidência da República. O "ódio" a Lula e ao povo se reflete nos ataques aos programas sociais do governo como Bolsa Família, ProUni, Luz para todos etc.


Muitos dos que se dizem democratas esquecem o verdadeiro sentido da democracia do ponto de vista material e não apenas formal. Democracia em sentido material compreende seres humanos com autoestima, portadores de dignidade e detentores de direitos e garantias. No dizer do constitucionalista José Afonso da Silva


"A democracia que o Estado Democrático de Direito realiza há de ser um processo de convivência social numa sociedade livre, justa e solidária (art. 3º, I da CR), em que o poder emana do povo, e deve ser exercido em proveito do povo, diretamente ou por representantes eleitos (art. 1º, parágrafo único); participativa, porque envolve a participação crescente do povo no processo decisório e na formação dos atos de governo; pluralista, porque respeita a pluralidade de ideias, culturas e etnias e pressupõe assim o diálogo entre opiniões e pensamentos divergentes e possibilidade de convivência de formas de organização e interesses diferentes da sociedade; há de ser um processo de libertação da pessoa humana da forma de opressão que não depende apenas do reconhecimento formal de certos direitos individuais, políticos e sociais, mas especialmente da vigência de condições econômicas suscetíveis de favorecer o seu pleno exercício".


Foi necessário que um trabalhador, filho da pobreza nordestina, identificado com o povo brasileiro assumisse a presidência para dar o verdadeiro e substancial sentido à democracia. Não há democracia com o povo de barriga vazia. Não há democracia na miséria. Democracia pressupõe vida digna. O Estado que se pretende democrático e de direito não pode ter cidadãos de primeira e segunda categoria. Não há democracia com o encarceramento em massa dos jovens, negros e pobres. Não há democracia quando o Estado Penal toma o lugar do Estado Social.


Infelizmente, por tentar construir um país mais igualitário, justo e verdadeiramente democrático Luiz Inácio Lula da Silva vem pagando um alto preço pela sua história, pela sua luta e pela sua origem. O preconceito e a discriminação nunca, absolutamente nunca, deixaram de acompanhar o ex-presidente.

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