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Penitentes da Semana Santa

segunda-feira, 21 de março de 2016





A matraca soa, demoradamente, num acorde exasperado de estalidos secos conduzindo a lamentação das almas que seguirá a passos lentos pelas sete estações da Via Sacra  barranqueira,  a entoar benditos e padre-nossos.
Os penitentes de Xique-Xique flagelam-se com as lâminas afiadas da “disciplina”, num suplício multifacetado de arrependimentos e de  excessos dogmáticos de religiosidade popular,  buscando redimir os  próprios pecados e os alheios.

As almas santas, estagiárias, que estão a levitar no limbo do purgatório, acompanham os fiéis penitentes durante a lamentação quando se alimentam das suas  rezas, em forma de benditos, nutrindo a  esperança de que sejam atenuados ou eximidos os seus sofrimentos, numa espécie de remissão a purgar todas as faltas e transgressões cometidas em vida. .

Os devotos serão, portanto, amparados e providos  por essas santas almas benditas,  efêmeros habitantes do purgatório que é  lugar de penumbra, onde as penas são flexíveis e temporárias, jamais perpétuas, por força de orações das alimentadeiras.

Os rituais da lamentação praticados pelos penitentes de Xique- Xique  revestem-se  de  dogmas que não podem ser  olvidados. A liturgia penitencial há de ser celebrada, cumprida e executada por  sete anos ininterruptos quando, nesse intervalo de tempo,  na Semana Santa, as almas do purgatório suplicam pelos benditos e padre-nossos  dos que ainda estão  vivos.
Se um penitente desistir da autoflagelação dos sete anos seguidos, coitados deles! As almas santas benditas deixarão de conceder-lhe a indulgência plenária, pois o cumprimento do voto penitencial é compulsório a partir da quarta-feira até a sexta-feira no final da quaresma.

Nas imediações da Capela de São Pedro, no bairro dos Paramelos, onde residi, existia uma estação da Via Sagrada de peregrinação dos penitentes.  Ali ouvi e aprendi a cantar esse bendito de polifonia a três, quatro e cinco vozes:

Na quarta-feira Jesus com seus discípulos
Foi a Oliveira, foi a Jerusalém
Foi a Páscoa, meu Jesus com seus discípulos
Que padeceu a favor de nosso bem

Na quinta-feira Jesus banhou os pés
Com grande gosto, prazer e contentamento
Depois da ceia, meu Jesus restitui-se
Com grande gosto meu Santíssimo Sacramento

Na sexta-feira Jesus subiu ao horto
Foi rezar três horas de oração
Encontrou Judas na frente de uma tropa
Já vinha ele de alferes capitão.
 Na última estação, já no cemitério, vozes roucas se juntam, contritas,  desfazendo os murmúrios dos curiosos, avisando  num toque derradeiro:
 “Alerta, alerta, pecador
Pecador que não se lembra do pecado
Hoje é vivo, amanhã é morto
Na escada da sentença
Purgatório é penitência
Eu vos peço, meu Senhor
Eu vos peço: Misericórdia!”

Após as trevas da madrugada de Sexta-feira da Paixão, resplandece o Sábado e rompe-se a Aleluia com  o enforcamento dos Judas de todos os gêneros que  persistem  transitar entre os cristãos beiradeiros a  oferecer-lhes  mais do que  trinta dinheiros.
Apraz-me dizer  que esses Iscariotes personificados serão malhados e escorraçados  pelo povo penitente da beira do rio. AA
Autor: Nilson Machado de Azevedo
Especial para o A VOZ.



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