"Voto em qualquer um, mas não voto no PT"

segunda-feira, 7 de março de 2016

(Cumpre, de início, o alerta de que o autor desta matéria não possui  vínculo partidário com o PT.)


Pois bem. Poucas coisas são mais ridículas em uma discussão sobre política do que alguém lançar mão da frase: “voto em qualquer um, menos no PT” e, quando confrontado sobre o motivo da afirmação, não sabe dizer o porquê.

Ou pior, lança golfadas do que de mais abjeto pode servir de “argumento” em um debate que se pretenda minimamente razoável: “porque não”. O ápice da truculência argumentativa e da ignorância racional. E isso, para quem está acostumado a conversar sobre política, é absolutamente corriqueiro, infelizmente.

Revela, evidentemente, o total desconhecimento do sujeito sobre inúmeros (ou talvez todos) aspectos que envolvem a questão. Não sabe, por exemplo, que essa retórica já está de há muito obsoleta e que era propagada por uma elite privilegiada entre o fim da década de 1980 e meados da década de 1990, quando ela se sentia “ameaçada” por um partido à época com bandeiras sociais contundentes que “ameaçavam” seu reinado secular. Talvez o atual propagador do lema, por querer fazer parte dela, supõe ser essa ainda a postura exigível. Ledo e atrasado engano.

Não sabe, com efeito, que grande parte desta mesma elite, a que ele gostaria de pertencer, comemora hoje os governos petistas, sobretudo os banqueiros, ícones do andar de cima do estamento social. Ignora, ademais, que o PT já se afastou, aparentemente em definitivo, daquelas políticas ideais e sociais que serviram de base e de impulso ao partido, traídas pelo pragmatismo do poder e, sobretudo, da sua manutenção. Um dos péssimos nomes que isso carrega é governabilidade, neologismo que justifica o fisiologismo, o clientelismo, e outras práticas deletérias à sociedade.

Desconhece também o pobre incauto que um partido não governa sozinho e que há inúmeros mecanismos de contenção política e jurídica para abusos e desmando. E que não há qualquer chance do país ser transformado em Cuba, Venezuela, ou em nenhum outro, nem mesmo em alguma Alemanha ou Suécia se seus preferidos estiverem governando. Esse maniqueísmo canhestro, tentado a definir e separar por partidos quem é bom e quem é mal para a política do país é ridículo.

Vale citar um famoso constitucionalista, Ferdinand Lassalle, para informar aos desavisados que em nosso país, inalteravelmente consolidado como um estado democrático de direito, vigora não só uma constituição da república, mas a seu lado atuam também os fatores reais de poder, impedindo qualquer arroubo ou delírio totalitarista.

Nada melhor do que leitura e a observação para que se acumule cabedal argumentativo. Não basta em uma discussão a coragem do enfrentamento pela truculência barata nem uma retórica vazia inspirada em alguém ou em algo que não se sabe nem mesmo o significado ou a postura.

Repise-se, por oportuno, o aviso de que o signatário não possui qualquer vínculo com o PT. Outrossim, defende com veemência muitas daquelas ideias das quais o partido se afastou, objeto de comentário acima. O que não nos conforma são a discussão e o debate baratos, estapafúrdios e vazios. E não a defesa desse ou daquele partido político.

Neste ano teremos eleições no país e não há melhor momento para uma devida reflexão política. Não se deixe levar por argumentos rasteiros e carentes de fundamentação. Pense, leia, pergunte, procure saber, antes de entrar em debates e discussões ou, sobretudo, de tomar decisões eleitorais.

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