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Nêgo D'Água outra vez

segunda-feira, 15 de agosto de 2016




Afirmo de viva voz que já me deparei com o folclórico  Nêgo D’Água, o elemento de corpo disforme e olho no meio da testa que eu mesmo vi e me tremo até hoje, embora há  gente, incrédula,  que diz que tudo que conto não passa de  lenda ou história do Trancoso. Pois sim.

Eis o causo 

Estava  eu a bordo de uma  barca navegando  pelo canal do Guaxinim,  indo de Xique-Xique  para o povoado do Icatú, quando o Nêgo D'Água" emergiu das águas barrentas  e apareceu bem ao lado da minha embarcação, querendo fumo de rolo.

Por sorte,  levava comigo o objeto do desejo do “compadre” e de brinde ainda joguei pra ele  uma garrafa de cachaça catuzeira.

Para quem não sabe, o Nêgo d’Água  vive no meio do rio, perto das c'roas, especialmente em locais onde existem  pedras e rochedos. Ele  gosta de fazer locas cavando os barrancos, provocando o deslizamento das terras, assoreando o rio. Os pescadores colocam armadilhas perto das plantações cultivadas nos lameiros,  na vã  tentativa de aprisioná-lo.  Nunca conseguiram a façanha.

Apesar de viver também fora d'água  ele nunca se afasta muito da beira do rio. Quando não gosta ou implica com um pescador,  afugenta os peixes tangendo-os para longe da rede de pesca.

Adora fumo.

Conhecedores desse vício, os pescadores jogam pedaços de fumo  na água para obter a simpatia  desse caboclo.

Ele costuma aparecer  em noites de farinhada, nas casas de farinha  das ilhas do “Velho Chico” e quando os beradeiros  se acomodam  nas esteiras e redes para dormir, o Nêgo D’Água, sorrateiramente, perambula  entre os pescadores  que estão adormecidos,  para roubar fumo, cachaça, farinha, carne de bode, manteiga de garrafa e  beijú de tapioca.

Um pescador conversando comigo numa bodega defronte à Ipueira em Xique-Xique,  contou-me que pescava em noite de lua cheia, perto da Ilha do Paulista, em Xique-Xique, quando percebeu o vulto de um animal morto boiando pela correnteza. Remou apressadamente em direção ao animal e, ao se aproximar, viu que se tratava de um cavalo. Tentou encostar o paquete para verificar a marca do ferro, para avisar ao dono. No entanto, o animal afundou e, logo em seguida, a canoa em que  estava esse pescador foi fortemente sacudida. Notou, nesse ínterim, que o Nêgo D'Água, estava agarrado à borda da canoa tentando afundar a embarcação .

Nesse mesmo  instante,  o referido pescador lembrou  que trazia consigo um pedaço de fumo de rolo. Imediatamente, rezando o “Pai  Nosso”, diz ele que jogou  uma porção do fumo   para o tal elemento que, inopinadamente, pegou o presente, largou a canoa e dando muitas cambalhotas à tona d’água, desapareceu no fundo do rio, soltando estridentes gargalhadas.
Alguns dizem que existe apenas um Nêgo D'Água em todo o rio São Francisco, outros dizem que são muitos. O fato é que o bicho povoa a imaginação de muitos  beradeiros.  À  noite,  antes do romper da aurora, raros são os meninos que se aproximam da beira do rio.

Por causa do Nêgo D’Água que me apareceu no canal do Guaxinim, do qual saí ileso,  até hoje rezo benditos e exorcismos, especialmente  quando vou à  Capela de Santana na Ilha do Miradouro em Xique-Xique,  sem falar nas minhas idas à cidade de Bom Jesus da Lapa  por promessa que  ainda estou a  cumprir e a pagar.

Nilson Machado de Azevedo

1 comentários:

Anônimo disse...

isso ai e verdade eu mais o meu primo ja vimos essa livoziar no rio sao frasisco e o negocio estava feio

10/10/16 16:45

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