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Xique-Xique já foi assim

segunda-feira, 15 de agosto de 2016





Nos dias de feira livre participei, algumas vezes, das rodas em torno dos propagandistas do óleo de peixe elétrico, do homem da "mala da cobra", dos cegos violeiros, dos repentistas de literatura cordel, exímios comunicadores do sertão.

Na feira semanal surgia o palco no chão de terra batida ao redor do Mercado Municipal, a improvisada ribalta iluminada pelos raios do sol da beira do rio, quando as atenções se voltavam para os artistas populares, os mascates graduados na filosofia e marketing de pílulas milagrosas para curar mau-olhado, espinhela caída, ressaca, quebranto e dor de corno, dor muito comum naqueles anos 70.

No mesmo segmento, havia as mezinhas compostas do princípio ativo da catuaba para curar fastio sexual e seus efeitos colaterais, objeto de galhofas, piadas e dichotes, além dos delatores, dedos-duros, dos potenciais pacientes consumidores vorazes das pílulas divulgadas pelos mascates, propagandistas e marreteiros profetas, precursores da pílula viagra e assemelhados.

No dia de feira disputavam-se, como até hoje se disputa, nos botecos e nas precárias barracas erguidas desordenadamente nas imediações do porto de Xiquexique, as cachaças catuzeira, pitú e 51, raiz de quebra-facão em infusão na cachaça, vinho de jurubeba, tudo isso com a possibilidade do acompanhamento de tira gosto de mandi, caboge, curimatá, frito de carne de bode, bolo brevidade, suspiro e pêta.

Na feira, conheci repentistas e divulgadores de folhetos de cordel, dos quais recolhi esses versos em obra de oito pés:
Gancho de pau é forquilha,
Catombo de pau é nó,
A franga pôs – é galinha,
O fumo ralado é pó,
Peitica cantou é chuva!
Pé de boi é mocotó,
Sumo de cana é cachaça,
Pé de goela é gogó.

De um poeta popular, natural de Casa Nova, pitoresca cidade às margens do lago de Sobradinho, decorei esses versos por ele recitados, a demonstrar a sua inteligência e espirituosidade, quando todos nós aguardávamos esperançosos o período das chuvas no sertão, época em que a terra ardente entra no cio querendo ser fecundada, o poeta barranqueiro versejou essa obra-prima:

O rio se excita e transborda
Com a bonança das chuvas
Seguindo e fazendo curvas
Num trovejar que o acorda
E um sertanejo recorda
Das agruras do passado
Já sente o solo molhado
Ver o vergel no baixio
O sertão está no cio
Querendo ser fecundado.

Mas se existe essa espontaneidade dos repentistas, a poesia de cordel tem sido usada nas propagandas ou reclames, como se pode observar na sextilha abaixo, onde se fez, por encomenda, propaganda da Mercearia do Povo, estabelecimento comercial localizado no bairro do Alto Cheiroso, em Juazeiro da Bahia:

Aqui nós temos de tudo
Feijão, farinha e cachaça
Tudo que você precisa
Tá no Mercado da praça
Mercearia do Povo
O nosso preço é de graça.

Observem agora os versos de autoria do poeta Bastos Tigre, enquadrados no estilo cordel, criados para propaganda de “remédio” que se tornou famoso, especialmente por ter sido divulgado nos populares bondes que foram o   transporte coletivo comum nas grandes cidades brasileiras em meados do Século XX:

Veja ilustre passageiro
o belo tipo faceiro que
o senhor tem a seu lado.
E, no entanto, acredite,
Quase morreu de bronquite
Salvou-o Rhum Creosotado!

Crônica de Nilson Machado de Azevedo ( Especial para o jornal e blog A Voz)

2 comentários:

Zeca de Custódio disse...

Muito lindo Nilson, parabéns. Eu também conheci e me lembro destes eventos. Faltou você falar de Artur Lobo e sua efervescente . gengibirra
No porto, bem ali perto do Mercado Municipal, havia uma rampa larga, chamada de "Rampa do Capim", onde proliferavam os "paquetes", todos movidos a remo (ainda não se usava os motores). Eles traziam tudo que as ilhas produziam: mandioca, feijão, melancia, cana e sua garapa, abóbora, jerimum, quiabo maxixe e outras hortaliças, frutas diversa (puçá, jatobá, tucum), iguarias hoje "fora de moda".
Muitos deles vinham cheios de "capim cabeludo", colhido nas margens do rio, e que era vendido para os donos de jegues, animal abundante na cidade na cidade, antes da "água encanada". Os "aguadeiros" abasteciam as casas, com os "carotes" cheio de água, nos lombos dos jegues, que por sua vez, eram alimentados com esse capim. Vou parando por aqui, para não tornar esse comentário maior que a sua linda postagem. Um grande abraço.

14/8/16 05:35
Nilson disse...

Pois é, mestre Zeca, fico a lhe dever a gengibirra do Artur Lobo efervescida com bicarbonato.

15/8/16 20:21

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